domingo, 16 de junho de 2013

gois de papel

Sangria desatada


A função básica era, claro, fazer barba, cabelo e bigode. Mas os barbeiros, ou mestres barbeiros, como definiu o francês Debret nas andanças pelas ruas do Rio do século XIX, extrapolavam as funções primárias e viravam “sangradores”. Acreditava-se na época que essas sangrias ajudariam a curar doenças. O historiador Rodrigo Aragão Dantas estuda o fenômeno na sua tese de doutorado na Casa de Oswaldo Cruz, na Fiocruz. Seu trabalho mostra como essas barbearias evoluíram até virarem os salões de beleza modernos. Ele descobriu, veja só, o primeiro caso de cabeleireiro gay do país. Márcia Vieira, da turma da coluna, trocou dois dedos de prosa com o historiador.

Quem eram os barbeiros sangradores?

Eram negros ou descendentes de africanos. De 1844 até 1889, eram por volta de mil barbeiros.

As sangrias curavam o quê?

Segundo a medicina da época, era um recurso que permitia expurgar o mal pelo sangue. As doenças eram consideradas um desequilíbrio do corpo. E o equilíbrio poderia ser obtido tirando-se o mal pelo sangue ou usando remédios para provocar vômito.

Por que os portugueses se apossaram da tarefa? 

Por causa da dinâmica da migração da cidade. Os escravos foram trabalhar nas lavouras de café. Os portugueses ocuparam, então, trabalhos manuais urbanos. A entrada deles deu outro aspecto ao ofício, com uma preocupação estética mais apurada, mais próxima dos salões de cabeleireiro de hoje.

Você encontrou histórias inusitadas da profissão?

A mais curiosa foi a da mulher de um barbeiro francês. No Arquivo Nacional, está o relato de Maria José da Silva, que notou, em 1884, que o marido andava meio indiferente. E descobriu que o motivo, como diz o texto, era “ter renascido nele o torpe vício afeminado de servir de mulher a indivíduos do seu sexo, retirando-se, portanto, de sob o teto conjugal”.

Mas aí é outra história.

Fonte:Ancelmo.com

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