quinta-feira, 6 de junho de 2013

Reinaldo Azevedo

Daniela Mercury e o samba-da-antropófaga-doida

Eita! Há tempos eu não ria tanto!
Um amigo me envia por e-mail um convite que recebeu para um evento em apoio à cidade de São Paulo como sede da Expo 2020, que acontece no palácio de exposições Palais de Chaillot, em Paris. Como vocês podem ver, haverá um coquetel seguido por um show de Daniela Mercury. Acontece na próxima segunda, às 19 horas.
Sei lá quando foi feito o convite. Pode ter sido antes de a cantora ter anunciado para o mundo — e também para a Bahia — que ela tem uma “esposa”. Uma coisa é certa: Daniela saiu do armário para cair no pote de ouro. No domingo, ela trouxe o seu trio elétrico (é assim que fala?) para desfilar na micareta gay de São Paulo. O povo baiano pagou a conta: R$ 120 mil. Agora ela canta na França em defesa da capital paulista para a Expo 2020. A agenda de shows em seu site é frenética.
Até aí, vá lá. Que graça tem isso? Evidencia o que já escrevi aqui: as vítimas de manual e carteirinha no Brasil têm realmente uma forma curiosa de ser oprimidas: sempre por cima… Tanto melhor! Eu detestaria que os exageros da militância correspondessem à verdade. O que me levou ao riso foi outra coisa.
Uma página do site de Daniela, em inglês, compõe o convite, como se vê abaixo. Sei que a foto parece coisa de antigamente, mas o trabalho gráfico é recente… Dou destaque, em seguida, ao trecho final do texto. Vejam.
A critica brasileira está certamente surpresa e perplexa. Ninguém imaginava que esta “artista, cidadã e mãe” fosse a descendente direta da “vanguarda” que promoveu a Semana de Arte de Moderna de 1922, que ocorreu em São Paulo. Daniela, que excursiona com um show intitulado “Canibália” (mistura de “canibal” com “Tropicália”… Sentiram?) seria a representante moderna da vertente antropofágica da cultura brasileira. Caramba!!!
Xiii… Ela e Zé Celso vão ter de se estapear para ver quem fica com o bastão de Oswald de Andrade. Acho que o Zé Celso leva mais jeito.
É… Quando penso em Mário de Andrade, por exemplo, a primeira coisa que me vem à cabeça é “Tira o pééé do chãããooo”. Eu nunca tinha pensado o tal Axé segundo esse ponto de vista.
Em português…
O site tem uma versão em português. Os textos são diferentes. Em nossa língua, Daniela não tenta tomar o bastão de Oswald. Sabem como é… Em inglês, talvez pareça mais plausível. Mas encontro lá esta outra maravilha:
Eu não sei se o Brasil vai cumprir o sonho de Daniela Mercury e “sambar”. Mas que vai dançar, ah, disso, meus caros, a cada dia, tenho “menas” dúvidas, como diria a gramática companheira do companheiro.
Não custa observar: se Daniela quer ver o Brasil inteiro sambar e se é ela a descendente direta da vanguarda modernista de 22, resta-nos concluir que a Semana de Arte Moderna é uma das referências do samba brasileiro, certo?
Franceses e brasileiros não podem perder o samba-da-antropófaga-doida de Daniela Mercury. Na semana passada, ele custou R$ 12o mil aos pobres baianos.
Por Reinaldo Azevedo

Fonte:Veja.com

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