domingo, 28 de julho de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (IV)*


D. Pedro II, Imperador do Brasil, 1859.


Samuel Albuquerque**


Ao contrário do que ocorre com o mais célebre proprietário do Rio Comprido, o capitão-mor Henrique Luis de Araújo Maciel (1760-1829), a historiografia pouco se refere aos senhores ou senhoras que conduziram os destinos daquele engenho na segunda metade do século XIX.

Em suas “Laudas da História do Aracaju”, Sebrão Sobrinho editou um interessante “ofício da edilidade cristovense” que relaciona os engenhos de açúcar de São Cristóvão e Itaporanga no ano de 1855. O documento indica que o “Rio Comprido (antigo Desterro)” tinha como proprietário José Guilherme da Silveira Telles, um tenente coronel da Guarda Nacional, cuja memória foi preservada em célebres testemunhos de época. Ele aparece, por exemplo, na narrativa encomendada ao médico baiano Luiz Álvares dos Santos pelo presidente Manuel da Cunha Galvão, tratando da passagem do imperador D. Pedro II e da imperatriz dona Teresa Cristina pela Província de Sergipe, em janeiro de 1860.


Ao chegar à cidade de São Cristóvão, por volta das oito horas do dia 17, o imperador, que trajava “paletó preto, calça branca, chapéu de palha e botas de montaria”, encontrou a divisão da Guarda Nacional organizada em três brigadas e a primeira delas era comandada pelo tenente coronel José Guilherme. Segundo o testemunho, “A divisão da Guarda Nacional comandada pelo senador Antonio Diniz de Siqueira e Mello, formava alas desde a entrada da cidade até o Paço. A parada compunha-se de três brigadas. A primeira era comandada pelo tenente coronel José Guilherme da Silveira Telles, a segunda pelo tenente coronel Domingos Dias Coelho e Mello Junior e a terceira pelo tenente coronel Manuel Gaspar de Mello Menezes” (Santos, 1860, p. 101).


É preciso mencionar que, nesse antológico episódio da história sancristovense, o senhor do Engenho Escurial integrou a comitiva que acompanhava o augusto visitante. Segundo os registros de Luiz Álvares, “Na baixa do Vale do Medo, que fica meia légua distante de São Cristóvão, era S. M. o Imperador esperado pelo coronel Domingos Dias Coelho e Mello, um dos mais ricos proprietários da Província, varão maior de 68 anos. Estava no grande uniforme da sua patente militar e acompanhado de seus filhos, genros e outros muitos cidadãos, que tinham vindo a cavalo da cidade de São Cristovão para aí receberem S. M. o Imperador” (Santos, 1860, p. 100-101). Entre os filhos do Coronel Domingos, estava Antonio Dias Coelho e Mello, proprietário do Escurial e futuro Barão da Estância.


Pela “Felicitação que a S. M. I. dirigiu a comissão encarregada de sua recepção na cidade de São Cristóvão”, documento editado na obra de Luiz Álvares de Silva, constatamos que a referida comissão era formada pelos mais prestigiados cidadãos de São Cristóvão e Itaporanda d’Ajuda. Encabeçava-a o coronel Domingos Dias Coelho e Mello, patriarca do Engenho Itaporanga, seguido pelo já mencionado filho Antonio e pelos genros Sebastião Gaspar de Almeida Botto, senhor do Engenho Poxim, Pedro Leopoldo de Araújo Nabuco (futuro Barão de Itabaiana), senhor do Engenho Cumbe de Baixo, além de outros parentes e aliados políticos. José Guilherme da Silveira Telles foi o quarto membro a assinar o referido documento (Santos, 1860, p. 108-109).


Contando com o empenho desses homens, a vetusta cidade foi cuidadosamente preparada para receber D. Pedro II, “ostentando suas graças e donaires, como a matrona que se enfeita esperando ocupar em um salão de baile o lugar que em outro tempo ocupara orgulhosa e altiva” (Santos, 1860, p. 101). Segundo o relato oficial, quando o imperador entrou em São Cristóvão, “estava toda ornada de arcos a cidade, feitos de folhagens e bandeiras. As ruas limpas e alcatifadas de junco. Todas as casas estavam asseadas, tendo as janelas ornadas de colchas. Das janelas as senhoras e meninas espargindo flores sobre o imperial Viajante, acompanhavam este ato com vivas entusiásticos, com aclamações prazenteiras e sinceras” (Santos, 1860, p. 101).


Indicando outros vínculos na rede de relações de José Guilherme, também assinaram o documento supracitado os seguintes senhores: cônego Ignacio Antonio da Costa Lobo, vigário geral da província; padre José Gonçalves Barroso, então vigário paroquial de São Cristóvão; major Pedro Muniz Telles de Menezes; médico Francisco da Silva Freire; bacharéis João Baptista da Lapa Trancoso e Marcellino Pereira de Vasconcellos; comerciante Antonio Fernandes de Souza; major Seraphim Álvares d’Almeida Rocha, senhor do Engenho Buraco (depois Usina São Carlos), em Itaporanga; engenheiro Silvio Anacleto de Souza Bastos, senhor do Engenho Itaperoá, em São Cristóvão; Francisco da Motta Rebello; padre José Evangelista de Campos, vigário de Itaporanga; major Felisberto de Oliveira Freire (futuro Barão de Laranjeiras), senhor do engenho Belém, em Itaporanga; capitão Gonçalo Vieira Dantas, senhor dos engenhos Capoeira (antigo Alagoa), Ribeira e Tombador, em Itaporanga; e major Delfino Gaspar d’Almeida Bôto, senhor do Engenho Patrimônio, em São Cristóvão. Grosso modo, eram homens ricos ou influentes, vinculados ao Partido Liberal.


No “Anuário Cristovense” de Serafim Santiago, encontramos um registro que indicia o lugar de destaque ocupado por José Guilherme na sociedade sergipana de meados da década de 1870. Ao descrever a Procissão do Depósito (também conhecida como da Transladação ou do Encerro), que, inserida na Festa do Senhor dos Passos, ocorria na noite do segundo sábado da Quaresma, Santiago informa: “À uma hora, e às três da tarde do sábado, ouvia-se dobrarem os sinos da Ordem Terceira e do Carmo, anunciando aos fiéis a tradicional procissão à noite, denominada do depósito. Ao toque da Ave-Maria, eram repetidos os dobres chamando o povo para o ato da concorridíssima procissão que saía da Igreja do Carmo; esta a maior de São Cristóvão não comportava o extraordinário número de fiéis que se espalhavam pela praça do Carmo aguardando a saída da imponente procissão. Momentos antes de sair a Imagem, já ali estavam reunidos um crescido número de músicos que iam prestar por antiga devoção, seus serviços gratuitamente, segundo o antigo e respeitado costume. Via-se também ao pé da charola, aguardando o momento da saída, o Presidente da Província com seu estado-maior, Barão da Estância, comendador Sebastião Gaspar de Almeida Botto, Coronel José Guilherme da Silveira Telles, Coronel Domingos Dias Coelho Mello, doutor Sílvio Anacleto de Souza Bastos, doutor Simões de Mello e muitíssimos outros abastados proprietários do Vaza-Barris, antigos devotos da respeitável Imagem do Senhor dos Passos. A charola nesta procissão era carregada exclusivamente pelo Exmo. Senhor Presidente e seus imediatos; então os homens que naquele tempo, faziam votos para nesse dia carregarem a charola, era necessário que rogassem para serem cedidos alguns dos varões aos devotos que haviam feito a promessa” (Santiago, 2009, p. 182). Dessa forma, o memorialista coloca o senhor do Rio Comprido entre os homens de proa no campo político e econômico da província, indicando, também, o seu credo e devoção.


Serafim Santiago registrou, ainda, a participação de José Guilherme em ações que visavam acudir São Cristóvão, livrando-a de um “dragão” que ameaçava devorar a cidade. Ele se referia ao barrocão José Aleixo, o já mencionado precipício surgido de sucessivos deslizamentos de terra nas encostas da colina sobre a qual a cidade foi erguida. Nesse sentido, em 1872, o governo provincial nomeou uma comissão da qual José Guilherme fazia parte, juntamente com o Barão da Estância, o engenheiro Silvio Anacleto de Souza Bastos, o vigário José Gonçalves Barroso e o bacharel Francisco José Martins Penna Junior. O objetivo da comissão era, obviamente, o “de se encarregar da direção da obstrução do dito barrocão” (Santiago, 2009, p. 274).


Infelizmente, a empreitada não teve um final feliz. Segundo Santiago, o vigário Barroso, “sem a competência técnica de engenheiro”, tomou a dianteira da comissão formada pelos “mais importantes cidadãos da localidade” e foi o efetivo administrador da obra, associando-se ao influente comerciante Antonio Fernandes de Souza, português conhecido popularmente como Antônio Cabeça (Santiago, 2009, p. 274-275).


Sob a batuta do vigário, foi erguida uma verdadeira muralha de contenção, a base de muita pedra e cal. Entretanto, registrou o memorialista: “Depois de um forte temporal, as águas represadas partiram a enorme parede, às 5 horas da manhã de um dia de outubro daquele ano [de 1873], produzindo grande estrondo que despertou a população; e então extraordinário número de pessoas compareceu ao local e ali lastimou a importância [de oito contos de réis] despendida improficuamente. (...) A queda da parede deu livre passagem às águas que devido à sua enorme quantidade, produziram grandes prejuízos aos moradores das ruas de São Miguel e do Mercado.” (Santiago, 2009, p. 275).


Uma “velha novidade”, poderíamos concluir, é o fato de o dinheiro público escorrer morro abaixo, devido a má gestão de obras. A crendice popular atribuiu aquele infortúnio à opção de Barroso em aproveitar para a sua muralha as pedras de antigas edificações arruinadas, como as igrejas de São Gonçalo e São Miguel e, principalmente, “a pedra oitavada que fora parte do braço do antigo Cruzeiro de São Francisco, decepado por uma faísca elétrica” (Santiago, 2009, p. 275).


Seja por incompetência terrena ou por castigo dos céus, a obra foi paralisada, os cofres públicos foram prejudicados e a sociedade seguiu temerosa de novas tragédias. Vencer-se-iam alguns anos até que São Cristóvão (e não São Jorge) vencesse o dragão.
*Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju, 6 jul. 2013, caderno B, p. 6.
**Samuel Albuquerque é Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br
Sequência de fontes/bibliografia utilizadas:
SEBRÃO SOBRINHO. Laudas da História do Aracaju. Sergipe: Prefeitura Municipal de Aracaju, 1955. p. 59-61.
SANTOS, Luiz Álvares dos. Viagem Imperial á Provincia de Sergipe.... Bahia: Typographia do Diario, 1860. p. 99-109.
REGISTRO DO CASAMENTO de Sebastião Gaspar de Almeida Bôto com Rosa Benta Coelho e Mello. Itaporanga d’Ajuda, 1853. In: Livro de registro de casamentos – 1845/1877, número 370. p. 54 (anverso). Arquivo da Igreja Matriz da Paróquia de Nossa Senhora d’Ajuda, Itaporanga/SE.
REGISTRO DO CASAMENTO de Pedro Leopoldo de Araujo Nabuco com Francisca Dias Coelho e Mello. Itaporanga d’Ajuda, 1851. In: Livro de registro de casamentos – 1845/1877, número 267. p. 38 (reverso). Arquivo da Igreja Matriz da Paróquia de Nossa Senhora d’Ajuda, Itaporanga/SE.
LOUREIRO, Kátia Afonso Silva. Arquitetura Sergipana do Açúcar. Aracaju: UNIT, 1999. p. 50.
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 182, 274 e 275.
 
Fonte:Blog Cicerone de São Cristovão

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