quinta-feira, 3 de abril de 2014

Antonio Samarone

O sangue itabaianense de Dolores Duran.
Há uns seis meses passei a twittar sobre o sangue sergipano de Dolores Duran e sobre o fato do grande ator e cantor norte- americano, Frank Sinatra, ter gravado uma música de uma filha de uma sergipana de Itabaiana. Foi um Deus nos acuda! Mentiroso, diziam os mais indignados; informação sem qualquer veracidade, falavam os mais comedidos. Mais um casal amigo e fraterno, o promotor de justiça Eduardo Seabra e a juíza de direito Mary Nadja se interessaram na pesquisa do tema. Eis que recebo um presente do casal: “ Dolores Duran – a noite e as canções de uma mulher fascinante ”, de Rodrigo Faour, Editora Record. Pois é, pessoal! Está lá no livro: “Nascida Adiléia Silva da Rocha, Dolores Duran era a terceira dos quatro rebentos a aparecer no lar do sargento da Marinha Armindo José da Rocha (1887-1948) e da dona de casa e eventualmente costureira - Josepha Silva da Rocha (1912-99). Casa de gente simples, vida sem riqueza, mas tudo dentro dos conformes daquele tempo. Contudo, nem todas as crianças eram do mesmo pai e da mesma mãe. Do primeiro casamento de Armindo nasceram Hilton (1925-94) (...) e Hilda (1926-99) (...) Armindo ficou viúvo, e (...) acabou casando (...) com dona Josepha. Foi ali onde os dois filhos haviam nascido que também viria ao mundo Adiléia em 7 de junho de 1930 (...). A última do clã, Irley, apareceu apenas seis anos depois (...). Seu Armindo era pernambucano. Como a maioria dos militares (e nordestinos) daquele tempo, era um sujeito durão, resmungão e fumava muito (...). Dona Josepha por sua vez era sergipana, da cidade de Itabaiana. Semianalfabeta, mas muito inteligente, teve uma criação sofrida. Ficou órfã muito cedo, sendo criada pelos tios numa fazenda. Contava sempre às filhas que era do tempo em que as mulheres não podiam aprender a ler e a escrever porque senão acabariam por escrever cartas para namorados, e isto seria inadmissível. Na roça era assim, se a menina quisesse sair de casa para dar uma voltinha na rua, o pai cuspia no chão e ela tinha que voltar antes de o cuspe secar. Por conta disso, levou surras homéricas, a ponto de ter de ficar com o corpo de molho na água morna com sal grosso numa banheira para sarar os ferimentos (ou seja, amenizando a ferida, mas ao mesmo tempo impingindo a ela uma dor insuportável), tudo em nome de uma educação um tanto conservadora e tacanha a que as mulheres eram submetidas nas regiões menos favorecidas do Brasil. Certa vez, o primo mais velho de Josepha, que servia na Marinha, veio para o Rio, então a capital federal e, diga-se, o lugar mais promissor em termos de oportunidades no Brasil daquela ocasião. Sendo assim, por volta dos 12 anos, ela acabou aportando também em terras cariocas numa longa viagem, vindo de trem e navio. Chegando ao seu destino, outra prima foi logo arrumando algumas tarefas para ela dar cabo (...). Deveria entregar costuras na oficina de uma costureira. Ela então - sem saber ler nem escrever - ia levar as tais costuras em lugares que jamais tinha visto, sem nenhum traquejo até mesmo para conseguir ler os letreiros dos bondes (...). Assim como o marido, ela tinha gênio forte, sendo rígida na educação das filhas (mas não tão enjoada quanto ele), e - vejam só! - também apresentava dotes artísticos. Nas horas vagas, gostava muito de cantar, compor e improvisar. Era boa de gogó, afinada, mas nunca chegou a se aventurar na carreira artística propriamente dita. Pode ter vindo daí parte do gene musical da menina Adiléia. Embora não escrevesse, guardava muitas melodias e letras de cabeça. Cantarolando em casa o dia inteiro, a qualquer hora do dia ou da noite (foi assim até morrer), era possível ouvir quadrinhas como esta, de sua autoria: Eu vim aqui pra falar com você / Que eu agora vou deixar de beber / Eu vou gritar que a alegria é só minha / Eu não bebo mais em copo / Eu só bebo em garrafinha / No carnaval, sou eu quem vai decidir / Vou sair fantasiado de ‘Zé, pague um olho aí’ / E a fantasia ninguém tem igual a minha / Eu 'vou sair fantasiado de cachaça Praianinha. Dona Josepha tinha o dom do repente. Se visse uma pessoa e estivesse inspirada, era capaz de pegar o nome da criatura e improvisar rimas riquíssimas na hora, criando uma embolada ali, na frente do sujeito. Tinha lá suas vaidades. Ciente das próprias limitações, fazia questão de pedir às filhas que corrigissem seu português, caso dissesse alguma palavra errada em público - mas que não lhe chamassem a atenção na frente dos outros, óbvio, mas em off” .
Clóvis Barbosa.
Publicado no Jornal da Cidade , Aracaju-SE, edição de domingo a terça-feira, 16 a 18 de março de 2014, Caderno A-7.

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