quinta-feira, 20 de novembro de 2014

AS MEMÓRIAS DE JUNOT SILVEIRA – I*

Junot Silveira e Jenner Augusto entre amigos em São Cristóvão, anos 1930.


Thiago Fragata*

À Jenner Augusto (11/11/1924 – 11/11/2014)


Os relatos memorialísticos traçam grandes painéis da realidade. Estes retratos são obras de artistas e/ou historiadores, uns mais realistas, outros mais poéticos, cronistas do passado. Recentemente, recebemos duas excelentes produções biográficas, genealógicas, de marcante rigor historiográfico. A primeira foi “Memórias de famílias: o percurso de quatro fazendeiros”, de Ibarê Dantas; a segunda, “Trilhando Memórias”, de Ana Maria Fonseca Medina. Por demais resenhadas, devo apenas reputar o nível e o vigor do gênero literário em terras sergipanas. Nem sempre as memórias de um contexto historico-geográfico são enfeixadas em livro e chegam ao público leitor. Se o relato memorialístico que Serafim Santiago escreveu para os seus netos em 1920 ganhou o formato livro em 2009 foi graças aos esforços da Universidade Federal de Sergipe e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em razão do consenso destes centros de difusão do conhecimento. O Anuário Christovense traça um panorama geral dos fatos e práticas civis e religiosas de São Cristóvão na segunda metade do século XIX e início do XX, quando o autor comemora a chegada do progresso com a inauguração da Fábrica de Tecidos Sam Christovam em 1914. (1) No presente artigo revelarei a São Cristóvão na década de 1930 através das lembranças de um cronista, Junot José da Siveira (1923/2003). 
 
Junot Silveira era irmão de Jenner Augusto, destacado artista plástico, e teve uma marcante atuação no jornalismo baiano apesar de ter ensaiado seus primeiros voos em Sergipe, assim como o irmão. Foi editor do jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, por mais de 40 anos (1958, meados da década de 1990). Na sua crônica registrou a nostalgia dos tempos de infância em São Cristóvão enquanto pauta do gênero literário que dominou magistralmente. “Num sentido, genérico, usa-se a palavra crônica para indicar, até hoje, o registro da feição de uma comunidade e de uma época, as memórias de um passado que se quer fixar”. (2) Apesar do dissenso quanto a classificação da crônica, se é paraliteratura, literatura ou história, tenho o cronista como um historiador dos costumes ou historiador do cotidiano.(3) 
 
Folheei 20 crônicas de Junot Silveira produzidas entre 1968 e 1994 e confesso minha admiração e descoberta do seu potencial memorialístico; “algumas de suas crônicas dominicais – conforme asseverou Mario Cabral – são antológicas”. (4) Da minha parte, não ousarei resenhar ou mesmo resumir seus escritos a respeito da sua encantada infância. Por isso deixarei seu texto “Ontem e Hoje”, publicado em 1988, substituir este elogio. Antes é importante frisar que os irmãos Jenner Augusto e Junot Silveira chegaram em São Cristóvão em 1930. Sua mãe, Maria Catarina Mendes da Silveira, professora, foi transferida para o Grupo Escolar Vigário Barroso, situado na atual Praça da Matriz. A residência simples em que moraram por 4 anos era no fundo da Igreja do Amparo dos Homens Pardos. (5) 
 
 ONTEM E HOJE - Vendo tantos carros manobrar no pátio do estacionamento eu me lembrei dos tempos de criança. Da época em que vivi em São Cristóvão com seus casarões coloniais, os seus conventos, os seus frades e suas beatas, as procissões desfilando pelas ruas, a velha fábrica de tecidos que funcionava na Cidade Baixa. 
 
 Era para essa fábrica que passavam, madrugada ainda, dezenas e dezenas de operários pela nossa porta. Eram homens e mulheres que acordavam cedo e calçavam tamancos, pisando em passos rápidos o chão de cimento das calçadas ou o barro das ruas. Acordavam cedinho, com o amanhecer, para se dirigirem ao trabalho, que não ficava perto da residência de todos. À época não havia transporte coletivo; o jeito era utilizar as pernas, caminhar muito mais de um quilômetro para lá e muito mais de um outro quilômetro para voltar. Iam limpos para o trabalho, limpos como a manhã que respiravam e quando retornavam estavam suarentos, com os corpos visgando e com vestígios de algodão. Traziam do serviço essa lembrança diariamente, e mais o cansaço de lidar com os teares. 
 
 Nas tardes de domingo tinham como lazer o futebol, o quadro da própria fábrica, o União Têxtil, se a memória não me trai, fazendo ótimas exibições frente a representação de outras cidades, inclusive Aracaju. No União Têxtil havia grandes valores, como Zeca Trincheira, um zagueiro pesado e forte e o hábil centroavante Zeca Tenisson. O Zeca Tenisson jogou futebol por mais de 25 anos seguidos, sempre com muita garra, muito empenho e muito brilhantismo. E também com muita discussão em campo, que não era homem para levar desaforo para casa. Por várias e várias vezes seguidas comandou a seleção sergipana que, se nem sempre teve melhor atuação, não foi por sua culpa. 
 
 O Zeca Tenisson jogou futebol durante tanto tempo, que eu devia ter uns cinco anos de idade quando ele já era craque do União Têxtil e, já adolescente, quando contava 17 anos, eu jogava ao seu lado em Laranjeiras e ele me transmitia alguns de seus truques e um pouco da sua experiência e da sua habilidade. Tivesse ele atuado em outros meios, em um centro como o Rio de Janeiro ou São Paulo, teria gozado de fama nacional. Fama justa, merecida e não fabricada como é comum acontecer hoje em dia. 
 
 O campo do União Têxtil, em São Cristóvão, era aberto; o da Associação Atlética, do Lagarto, colocava uma empanada nos dias de grandes eventos, o de Laranjeiras tinha uma cerca de bambus. No gramado dos três conheci bons atletas, mas nenhum deles se igualava ao Zeca Tenisson. Mas dele tenho também a lembrança de bom amigo que me levava, quando criança e ele adulto, a passear na São Cristóvão, inclusive nos dias de festas religiosas. Nos dias em que a cidade se enchia de visitantes. Nos dias em que chegavam os romeiros de várias partes, em caminhões, que então ainda não eram chamados de paus-de-arara. Ou em trens especiais. E as pessoas de maiores posses, altos comerciantes e senhores de engenho, que se transportavam de automóvel. 
 
 Esses automóveis eram, para mim, um deslumbramento. Nunca tive, sequer, um velocípede. O carro em que brincava era de madeira, das quatro rodas ao volante, feito por mim e os amigos. Daí o encantamento pelos veículos que chegavam de fora, especialmente de Aracaju. Pela manhã quase sempre ficavam postados na Praça de São Francisco e à tarde, lado a lado, na Praça da Matriz. Alguns motoristas, mais compreensivos e tolerantes, permitiam que eu sentasse no coxim, pegasse no volante, tocasse na alavanca do câmbio. Tudo isso eu fazia com o maior contentamento da vida. Com a mesma sofreguidão com que Thiago, sentado ao meu colo, mexe no painel do carro, acende e apaga as luzes do farol, vai-se familiarizando, precocemente, com a máquina que eu vejo manobrar no pátio do estacionamento e me traz lembranças de um passado que vai longe, mas sempre presente em minha vida sentimental. (6) Continua.

 
*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 12 de novembro de 2014, p. B-6.
** Thiago Fragata é Especialista em História Cultural (UFS), sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT), membro do GPCIR/CNPQ. Email:thiagofragata@gmail.com

Fonte:Blog Cicerone de São Cristóvão

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