terça-feira, 24 de março de 2015

A poesia da corrida entre São Cristóvão e Aracaju
Seis pares de tênis, três amigos e uma só corrente de amizade
Desde quando comecei a publicar textos neste espaço resolvi comentar sobre corridas de uma maneira mais objetiva, evitando qualquer conteúdo pessoal. A intenção é procurar dar um sentido jornalístico aos assuntos, ainda que de maneira informal.
A minha perspectiva particular dos acontecimentos deixei para o blog 1000 Corridas Antes de Morrer. Mas aqui abro uma exceção e conto, em miúdos, como foi a 32ª Corrida Cidade de Aracaju. Em graúdo, descrevo com mais detalhes no referido blog. As informações jornalísticas sobre a corrida podem ser acessadas aqui. As imagens, feitas pelo fotógrafo César de Oliveira, podem ser visualizadas aqui. O resultado geral aqui.
Para sentir como foi a corrida, aos olhos de quem participou como iniciante, continue a leitura ou acompanhe a linha do tempo de muitos usuários do Facebook e perfis do Instagram, como esses aqui, e aqui.
Fotos: César de Oliveira
A corrida entre São Cristóvão e Aracaju é poesia do começo ao fim. Definitivamente, posso afirmar que a corrida de rua agora é parte da minha vida. Não pela distância percorrida entre as duas cidades, mas única e exclusivamente pela experiência que, passo a passo, conquistei ao longo do percurso.
Os apaixonados por essa prova são unânimes ao dizer o quanto ela é especial. Falam com devoção da energia das pessoas, do brinde à festa e do suor que desce como lágrimas. É preciso muitos e bons escritores para descrever o encanto desse romanesco evento.
Em meio a tantas histórias, um sedentário, pós-cirurgia de joelho para recompor o ligamento cruzado anterior, estava lá para cumprir o desafio dos 25 km.  Comecei a correr há oito meses, sem muita esperança e com medo de uma nova lesão. Somado a isso estavam os quilos em excesso. Apesar de toda a negatividade, incrivelmente eu ainda carregava a esperança de vencer o presságio de uma vida desregrada.
Largamos às 16h15. No pensamento todos os meus sonhos. No bolso todas as mariolas possíveis. A animação da cidade de São Cristóvão começou a aparecer ainda nos primeiros metros. Um corredor de crianças, jovens e idosos deu o arrojo para manter a vitalidade.
"É muito diferente participar dessa corrida", afirmam os corredores. Eu estava prestes a saber o motivo de ser tão extraordinária. O corpo sentiu arrepios antes mesmo de sair da cidade. Foi um sintoma da minha euforia. O necessário para responder ao questionamento interno.
A cidade histórica de São Cristóvão, tão acostumada com as peregrinações dos fiéis que caminham pausadamente entre igrejas, deu lugar a uma repentina e súbita correria entre apressados que disputavam a primeira colocação e a maioria  que somente queriam cruzar a linha de chegada.
Ao menos uma vez por ano, as famílias, que moram próximas da rodovia João Bebe Água, um dos trechos com maior índice de acidentes automobilísticos em Sergipe, esquecem que ali é um lugar perigoso. A preocupação com a violência no trânsito dá lugar aos aplausos.
Duas subidas implacáveis, a primeira no km 10 e a segunda no km 12. O desgaste de ambas só deu pra sentir faltando menos de 8 quilômetros para o final. Mas o que era aquilo nas proximidades do bairro Rosa Elze e Eduardo Gomes? Anualmente assisto aos grandes eventos esportivos de ciclismo, principalmente o Tour de France e o Giro D´Itália. Quem já viu pelo menos uma vez os ciclistas enfrentando aquelas montanhas vai saber do que se trata. Do contrário clique aqui.
Legenda
Entrar na reta daqueles dois bairros é um misto de cansaço e vitória, muito embora este último prevaleça. A pista é tomada por moradores. Que clima! Aqui a poesia encontra seu melhor verso. Crianças que buscam apenas o carinho do contato mão com mão, como se todos ali fossem heróis. Caros franceses e italianos vocês precisam conhecer essa festa e fazer uma etapa de ciclismo por aqui. Sinto muito por vocês.
Ladeira do bairro América à vista! Respirei fundo, olhei pra frente e assei a canela. No embalo as crianças acompanharam. De mãos dadas e tudo mais. Pose pra foto. Dali em diante era só seguir o fluxo. O joelho pedia pra parar, o coração mandava acelerar e os olhos cobiçavam a  linha de chegada.
Lado a lado, do começo ao fim, eu, Clayton e Márcio entortamos a Barão de Maruim para entrar na rua da frente. Ao meu lado ouvi lágrimas caindo. Também foi difícil me conter. O pórtico estava próximo. Os mesmos pés que pisaram a cidade histórica de São Cristóvão estavam ali para contar sua própria história depois de 25 quilômetros. Seis pares de tênis, três amigos e uma só corrente de amizade. Não deu pra segurar o choro.

Fonte:Infonet. com.br

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