sábado, 21 de janeiro de 2017

Morre Vesta Viana

Vesta Viana:Anaif de São Cristovão


Sancristovidade é analogismo para designar a simpatia, o bairrismo e mesmo a inspiração que visitantes e artistas recebem da histórica São Cristóvão. Assim podemos definir a relação entre a artista plástica Vesta Viana e a cidade natal. Ainda menina, estudante do Grupo Escolar Vigário Barroso, nos idos de 1960, ela descobriu a mágica das tintas com a saudosa Professora de Artesanato Maria Rodrigues. Assim, da fascinante gradação de cores primárias e do entranhado amor à cidade histórica nasceu sua arte.

No início de 1970, Jorge Amado e Zélia Gattai passearam pelo nordeste e, como o umbigo do saudoso escritor está enterrado em Estância, não esqueceram de Sergipe.[1] Na estada, foram até São Cristóvão, a 4ª cidade mais antiga do Brasil. A História e a cultura da vetusta ex-capital fascinaram o casal que resolveu degustar os ares e os doces coloniais durante dias. Num assédio à casa n. 54, da rua Frei Santa Cecília, onde a dona Noêmia Soares Viana comercializava seus doces típicos, o ilustre casal descobriu Vesta Viana, pintando casarões e igrejas centenárias em meio ao florido jardim. Na ocasião, a jovem artista presenteou seu “cavaleiro da esperança” com uma de suas telas. 

De volta a Salvador, durante entrevista sobre as impressões da viagem, o autor de Gabriela, cravo e canela comentou a respeito da “jovem artista, meiga, ingênua como os traços retangulares de sua pintura primitivista que ganhou sua atenção, lá na antiga São Cristóvão, cidade retratada em suas linhas e cores.”[2]

As considerações do escritor baiano acerca da menina sancristovense geraram um frisson na imprensa baiana, massificado após o roubo da obra que o escritor ganhara da artista. O caso não foi levado à justiça mas teve um desfecho inusitado. O próprio Jorge Amado esclareceu o sumiço do quadro de Vesta Viana da sala-de-estar de sua residência: “Foi Dorival Cayme, interessado na arte primitiva de Vesta, quem surrupiou o quadro presenteado. Cayme confessou a autoria dias depois, alegando que tomou conhecimento da artista sancristovense através da propaganda do compadre lesado”.[3]Diante da repercussão do fato, a edição especial da Revista Manchete, veiculou a importância de conhecer São Cristóvão, em Sergipe, seu acervo arquitetônico e uma artista: Vesta Viana. 

Assim, 1970 figurou como ano-chave na vida da “artista primitivista”, segundo conceito de Jorge Amado. Alguns especialistas cunharam de primitivista, original, desprovida de perspectivas e academicismo, a arte naïf. A propósito, Philipe Jean Marie Meilhac atenta que “irmana-se, até certo ponto, a arte naïf com a arte popular. Em ambas, o artista projeta na sua criação a mitologia peculiar a sua cultura, a sua terra, a sua gente”.[4]

Os fatos citados oportunizaram o sucesso de Vesta Viana. Com o advento do Festival de Arte de São Cristóvão, que teve sua primeira edição em setembro de 1972, ela teve sua obra consagrada. O FASC, momento e epicentro das expressões artísticas do Brasil, virou cenário onde a artista nativa e suas obras desfilaram com desenvoltura. Em discursos de abertura, exposições coletivas e individuais, debates e cursos ministrados, a naïf brilha, pinta, acontece nas décadas de 1970 e 1980. Mesmo sem formação acadêmica, Vesta Viana teve o reconhecimento de especialistas e críticos que fizeram de sua obra um objeto de pesquisa. Antônio Olinto e Zora Seljan, por exemplo, chegaram a encomendar de Londres os quadros de Vesta Viana.[5]

Para saciar a fome da clientela pela sua arte - ela quase não desgarrava do pincel no mês do FASC - Vesta Viana montou ateliê em sua casa. Daí seus quadros difundiram-se pelo mundo, entre os anos de 1972 e 1986. Em Portugal, sua obra pode ser encontrada no Museu de Arte Primitiva de Guimarães.

Em 1981, o fotógrafo Antônio Pereira organizou a exposição “Aracaju e sua gente” onde estampou a arte de uma série de artistas sergipanos, dentre os quais destacava-se as telas da artista sancristovense. Somando os dados coligidos em acervos e entrevistas, foi possível montar o seguinte roteiro curricular:

1971 - Exposição individual no Museu de Sergipe, em São Cristóvão,
1972 - Exposição Individual no Ateliê (I FASC),
1973 - Exposição Coletiva, onde recebeu o Prêmio Assis Chateaubriand (II FASC),
1975 - Exposição Individual no Ateliê (IV FASC),
1980 - Exposição Individual no Museu de Sergipe (XIX FASC),
1982 - Exposição Coletiva do Natal realizada na Galeria de Arte J. Inácio, em Aracaju,
1986 - Exposição Coletiva realizada no Cultart, em Aracaju.

Seu ateliê funcionou até 1985, era um laboratório e exposição permanente de sua obra. Fui seu aluno num curso de pintura, no ano de 1990, promovido pelo Centro de Artes Aloísio Magalhães, instituição que dirigia com muita competência. 

Até o ano de 1995, o FASC teve o patrocínio do Governo Federal, foi planejado e executado pela Universidade Federal de Sergipe, figurando como “momento, a cada ano, onde a música, o teatro, o cinema, a escultura e a pintura eram celebrados. (...) e tanto artistas de renome como amadores e estrelas do Estado sergipano ganharam o conhecimento do público ao expor seu talento”.[6]Entretanto, desprovido da gerência da UFS e do patrocínio do Governo Federal, os eventos que se realizaram até 2004, com o rótulo FASC, declinaram em programação e público. 

A naïf cresceu e sofreu os reveses do Festival de Arte de São Cristóvão, por isso desacelerou sua produção a partir de 1992, e passou um tempo compondo poesias sobre a cidade, sua natureza e cotidiano. 

Em 2005, ano que marcou a retomada da parceria da Prefeitura Municipal de São Cristóvão com a Universidade Federal de Sergipe seu nome foi lembrado. Vesta Viana recebeu a comenda Mérito Cultural FASC, dedicada àqueles que contribuíram para criação e, sobretudo, para o sucesso do evento que desde aquele ano não se realiza.Fonte Thiago Fragata

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