sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Segunda Guerra Mundial

O submarino nazista no Brasil

Ele veio para cá fazer a guerra, acabou afundando, e foi encontrado por exploradores brasileiros. A Marinha não quer que o submarino seja mexido. Mas uma expedição conseguiu ir até ele. Veja o que ela encontrou

Ilustração: Alexandre Jubran/ Design: Inara Negrão


Em janeiro de 1942, o Brasil cortou relações diplomáticas com a Alemanha de Hitler. Os nazistas responderam de modo enfático: mandando uma frota de submarinos para a nossa costa. Sua missão era impedir o envio de suprimentos dos EUA para a Europa, torpedeando os navios que passassem pelo Atlântico. O alvo principal era a Marinha americana, mas também sobrou para nós: até o final da guerra, os nazistas afundaram 36 navios mercantes brasileiros, deixando 1.074 mortos. Um verdadeiro massacre, que gerou comoção nacional na época. Os alemães enviaram 25 submarinos para patrulhar o Brasil. Onze foram afundados pelos Estados Unidos. Apenas um deles, o U-513, foi localizado até hoje. Ele foi encontrado pelo velejador Vilfredo Schurmann, que passou anos procurando os destroços e está produzindo um filme a respeito (Em Busca do Lobo Solitário, atualmente em fase de edição). “A área de busca era muito grande. Era como procurar uma agulha no palheiro”, conta.
INFERNO SUBMER
O U-513 era chefiado pelo almirante Friedrich Guggenberger, um herói entre os nazistas. Em 1941, ele foi condecorado pelo próprio Adolf Hitler por ter afundado um porta-aviões britânico. Guggenberger era de uma eficiência implacável – até o final da Segunda Guerra, ele afundou 17 navios. Mas a vida dentro de seu submarino não era das mais agradáveis. “Pegava-se um motor e construía-se um submarino em volta”, diz Telmo Fortes, autor de um livro sobre o U-513. Isso significa que não sobrava espaço para quase nada – nem para que cada um dos tripulantes tivesse o próprio colchão. “Eles adotavam o chamado `beliche quente¿. Quando terminava seu turno, o marujo que saía do serviço se recolhia a uma cama que vagava.” Havia apenas dois banheiros, um dos quais foi transformado em despensa – e os presuntos, salames e peças de carne de porco salgada ficavam pendurados ao longo do corredor central, dificultando ainda mais a circulação.
O U-513 era bem primitivo para os padrões atuais. Usava tecnologias herdadas da Primeira Guerra Mundial e tinha de ser frequentemente abastecido por outros submarinos, conhecidos como “vacas leiteiras”, que levavam combustível (diesel), armas e mantimentos. Começou a navegar em agosto de 1942, mas Guggenberger só assumiu seu comando em maio de 1943. Não duraria muito. No dia 19 de julho, um hidroavião americano viu o submarino na costa de Santa Catarina – e lançou duas bombas sobre ele. A segunda pegou em cheio. Apenas sete tripulantes sobreviveram, entre eles o próprio Guggenberger. “Os militares [americanos] poderiam tê-los deixado em alto-mar, mas preferiram salvar os sobreviventes”, diz Schurmann. Guggenberger foi levado até uma penitenciária no Arizona, onde ficou até 1944. Em 23 de dezembro daquele ano, ele e outros 24 prisioneiros de guerra fugiram. Ele chegou a ser recapturado perto da fronteira com o México, mas acabou liberado pelos Aliados em 1946. Voltou à Alemanha, onde chefiou um quartel-general da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar coordenada pelos EUA na Europa) até se aposentar em 1972.
PERMISSÃO NEGADA
Vilfredo Schurmann soube do afundamento do submarino em 2002, enquanto fazia uma regata da ilha de Vitória até a ilha de Trindade – a aproximadamente 1.500 quilômetros de distância da costa brasileira em direção à África. “Em uma das noites, conversando com um fotógrafo e amigo meu, ele me mostrou um livro.” Era A Última Viagem do Lobo Cinzento, o livro escrito por Telmo Fortes. A partir daí, foram 11 anos de pesquisa, entrevistando especialistas e pessoas envolvidas na história. “Fizemos um levantamento de dados, checamos e rechecamos informações, definimos uma área de busca, juntamos uma equipe de arqueólogos, oceanógrafos, biólogos e engenheiros”, diz Schurmann. Foram 18 expedições de barco. A equipe usava um sonar, que funcionava como um radar submerso. Não era fácil enfrentar o mar agitado e ao mesmo tempo içar e submergir o sonar, que ficava conectado por um cabo de 130 metros [veja no infográfico]. “Muitos da equipe desistiram”, conta ele. Até que, depois de dois anos varrendo o fundo do mar, finalmente o submarino foi encontrado. “Foi uma emoção indescritível”, diz Schurmann. Segundo ele, o submarino tem um grande furo no casco e está com o bico de proa quebrado, mas de resto está intacto. Ou seja, dentro dele com certeza há tesouros históricos de enorme valor – e, muito provavelmente, os esqueletos de 47 soldados nazistas.
Por isso, a Marinha negou o acesso ao local. Não permitiu que mergulhadores desçam até o U-513. “Nós solicitamos a exploração, como já foi feita em vários países”, diz o velejador. Procurada pela SUPER, a Marinha explicou que o lugar é considerado um “túmulo de guerra” (local onde há restos mortais de combatentes), e por isso não é permitido mexer nele. “Eu entendo que deveria ser permitida a exploração [por mergulhadores], para poder identificar alguns objetos do U-513. O mergulho seria feito com total segurança. Estávamos com tudo preparado”, lamenta Schurmann. A Marinha só autorizou a ida de um robô até o submarino, o que já foi feito. As imagens gravadas por ele farão parte do documentário sobre o U-513, que será lançado no ano que vem.
No final de setembro, Schurmann partiu com a família para uma nova expedição de veleiro. Eles irão passar por cinco continentes (veja o itinerário em expedicaooriente.com.br), e só deverão voltar ao Brasil em dezembro de 2016. Ele diz que não tem intenção de procurar outros submarinos afundados na costa brasileira. Mas acha que um deles pode ser encontrado: o U-199, afundado ao largo da cidade do Rio de Janeiro. “Os outros foram afundados em profundidades bem maiores, no Nordeste.” A costa brasileira ainda guardará segredos da Segunda Guerra por muito tempo. Alguns, para sempre.

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