Revisão sobre João Bebe-Água*

Cartaz de IX FASC (1980) que homenageou João Bebe-Água

Thiago Fragata**


Ontem, 16, o Museu Histórico de Sergipe lançou projeto Casa de João Bebe-Água com o objetivo de apresentar as turmas escolares uma visão abrangente da Mudança da Capital e novidades sobre João Bebe-Água. Alem de palestra sobre o tema os alunos prestigiarão exposição, visita ao Ex-Palácio Provincial e ainda poderão fazer inscrição numa Gincana Estudantil. Esse texto desvelará a concepção teórica do projeto embasado num estudo de José Calasans Brandão da Silva e nos documentos pesquisados no Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, ex-capital de Sergipe.

A Mudança da Capital de São Cristóvão para o povoado de Santo Antônio do Aracaju constitui o segundo tema mais estudado na historiografia sergipana, perdendo somente para a questão dos limites entre Sergipe e Bahia. No entanto, boa parte dessa produção pautou-se em discutir a origem e povoamento de Aracaju, o mérito/demérito e acerto/erro do governante Inácio Joaquim Barbosa e grau de ingerência de João Gomes de Mello, o Barão de Maruim, na decisão política.

Numa perspectiva inovadora para época, 1942, e atualíssima, o jovem José Calasans Brandão da Silva apresentou sua tese para concurso à cadeira de História do Brasil e de Sergipe da Escola Normal. Na visão calasiana a decisão tem fatores externos ou nacionais, como a política de conciliação inaugurada pelo Marques de Paraná, a era Mauá e uma mentalidade mercantil. Mas também, apresenta fatores internos ou regionais, como o fato do escoamento da produção taxada na capital São Cristóvão depender das marés do rio Paramopama, afluente do rio Vaza Barris. Sem esquecer que a zona mais próspera da Província chamava-se Cotingüiba e nela se achava assentada a economia sergipana. Em resumo, Calasans atenta para uma tendência nacional de mudar a sede para beira-mar mostrando que Alagoas (1832) e Piauí (1851) fizeram o mesmo naquele contexto.

Mas falando de João Bebe-Água ou de João Nepomuceno Borges, vejamos o que foi possível apurar. A primeira etapa da organização do Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, em 2006, revelou novidades sobre o enigmático sujeito que faz ponderar acerca da visão depreciativa e caricata que ganhou foros de verdade razão da repetição ao longo do tempo.

Antes gostaria de esclarecer que a intenção dessa nota não é heroicizar o personagem que vencido pela ação dos adversários políticos - João Bebe-Água era membro do Partido Liberal. Ele viu seu comercio falir, foi rotulado louco, patriota insano, um maltrapilho que morreu sonhando com o retorno da capital a guardar foguetes para pipocar nesse dia.

Lembrando conhecido jargão da historiografia francesa História faz-se com documentos. Eis que entre papéis antigos do Arquivo da Prefeitura de São Cristóvão descobri que o homem simples gozava de prestígio perante a população sancristovense. Era vereador em 1864, cargo não-remunerado naquela época. O termo de sua posse (29/09) informa que João Nepomuceno Borges era vereador re-eleito.

Ao correr os olhos no citado Livro de Eleições não demoramos a encontrar João Nepomuceno Borges como juiz de paz em 1893. Sabemos que ele não tinha formação em ciências jurídicas, o que não era requisito para o desempenho das atividades inerentes ao cargo, atinente a resolução de problemas da ordem pública e organização das eleições de vereadores e juízes. Manuel dos Passos de Oliveira Teles, juiz de órfãos de São Cristóvão, na época, afirmou ter conhecido João Bebe-Água e garante que ele não foi louco, não foi um mendigo, era um resignado.

Tais evidências levam a refletir o quanto a imagem depreciativa de João Bebe-Água, ora assentada no alcoolismo, ora na insanidade barrista, deve ser ponderada. Pela sua dimensão humana e protagonista, é hora de apreciar sua biografia como uma lição de amor a terra natal, São Cristóvão. É justamente dentro desta aura que hoje, 17 de março, surge na ex-capital mais uma entidade inspirada no sujeito: a ONG Ação Popular João Bebe-Água.

Diante do exposto, precisamos fazer uma revisão sobre a Mudança da Capital e especialmente sobre João Bebe-Água. Conhecer o projeto Casa de João Bebe-Água no Museu Histórico de Sergipe constitui o primeiro passo.


NOTAS

*Publicado no Jornal do Dia. Aracaju, ano VI, n. 1847, 17 e 18/3/2011, p. 4.

**Thiago Fragata é poeta, historiador e Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult) e-mail: thiagofragata@gmail.com

(2) APMSC, São Cristóvão. Livro de Eleição da Câmara Municipal - 1848/1893. Manuscrito.

Fonte:Bog Cicerone de São Cristovão

Direto da redação

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Jornalista e colaborador do portal, cobre as principais notícias do dia.

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