Trama/ Personagens:
- No final dos anos 1950, dois irmãos separados na infância se reencontram na condição de rivais ao decidir o destino de uma cidade e disputar o amor da mesma mulher. Pedro (Juca de Oliveira) e Diogo (Jardel Filho), filhos de fazendeiros do Mato Grosso, foram separados aos três anos de idade após perderem os pais em um desastre de avião. Pedro foi criado pela tia Nara (Neuza Amaral), em Divinéia – cidade fictícia –, no sertão de Mato Grosso, enquanto Diogo foi levado para o Rio de Janeiro e criado pelo engenheiro Heitor Gonzaga (Jaime Barcelos), engenheiro e ex-amante de Nara.
- No Rio, Diogo freqüentou as melhores escolas e desenvolveu um temperamento prático que o levou a se formar em engenharia e a se transformar em um profissional muito bem-sucedido, contratado da empresa de Heitor Gonzaga, de quem adotou o sobrenome e a quem trata como pai. Foi casado e teve uma filha, mas carrega na consciência a culpa pela morte da ex-mulher, que cometeu suicídio logo após a separação.
- Em Divinéia, Pedro Azulão foi educado pelo beato Juliano (Ênio Santos) – ex-piloto do avião em que seus pais morreram – e aprendeu desde cedo a tomar conta dos negócios do pai, firmando-se como o boiadeiro dono da maioria das terras de sua região
. Valente, de temperamento explosivo e respeitado como uma autoridade pelos moradores, ele demonstra o amor que tem pela cidade, batizada com o nome da sua mãe, vigiando com austeridade os forasteiros e viajantes que por acaso atravessam o seu território.
- Representando essas duas realidades – a modernidade e a tradição, o urbano e o rural –, os dois irmãos se reencontram 30 anos mais tarde, quando a empresa de Heitor Gonzaga envia Diogo ao Mato Grosso para chefiar a construção de uma represa no local ocupado por Divinéia. Situada às margens do rio Jurapori, a cidade deveria ser inundada pelas águas do rio. Os seus habitantes seriam, então, realocados em outra cidade, a ser construída quilômetros adiante, onde poderiam usufruir dos benefícios da irrigação do solo proporcionados pela barragem. Pedro Azulão, entretanto, não quer pagar o preço de ver sua cidade desaparecer em prol de um progresso no qual não acredita e estimula a população a se insurgir contra a obra.
- Enquanto tenta convencer Pedro de que está propondo o melhor para a cidade, Diogo conhece e se apaixona por Chica Martins (Dina Sfat), namorada de infância do irmão. A mulher, que passa a ser o objeto da disputa dos dois irmãos, cresceu sonhando em ser rica e morar na cidade grande e, por isso, odeia tudo o que a lembre da sua origem humilde. Ela odeia até o próprio nome, a ponto de dizer que se chama “Débora” ao ser apresentada a desconhecidos. No passado, ela chegou a abandonar Pedro Azulão para fugir com um fazendeiro que passava pela cidade, mas se arrependeu e voltou. No início, seu interesse por Diogo reside essencialmente na perspectiva de deixar Divinéia para viver na cidade grande, mas depois ela se apaixona pelo engenheiro.
- Acompanhando Diogo, também chega à Divinéia a jovem Bárbara (Regina Duarte). Ela é a filha que Heitor Gonzaga teve com Nara, quando esta tinha 16 anos. Foi levada ainda criança para a cidade grande e criada pelo pai, que nunca lhe contou a verdade a respeito da identidade da mãe. Seu maior drama são as freqüentes crises nervosas que lhe provocam cegueira psicológica, uma conseqüência do trauma de ter sido afastada da mãe. Em Divinéia, ela se aproxima de Pedro e de Nara e, a partir do relacionamento com os dois, consegue superar seu problema. Nara vai gradualmente ocupando o seu lugar no coração da filha, até que lhe revela a verdade. E Pedro se apaixona pela moça, que termina sendo a razão pela qual ele abandona o conflito com o irmão.
- No decorrer da trama, enquanto os engenheiros dão início aos preparativos para a demolição da cidade, Pedro Azulão tenta tudo o que pode para impedir que o irmão leve a cabo seu empenho. Por conta disso, acaba temporariamente preso. Quando é libertado, ele se convence de que é inútil resistir e decide se trancar em casa e se deixar levar pelas águas, como forma de protesto. Mas Bárbara revela que está esperando um filho dele e lhe pede para pensar na felicidade da criança. Emocionado, Pedro abandona a cidade.
- No capítulo final, o progresso triunfa, e Divinéia é submersa pelas águas do Rio Jurapori. Nara, que insiste em permanecer na cidade, morre durante a inundação.
Produção:
- Uma equipe da TV Globo visitou as cidades de Santo Antônio do Leverger e Chapadas, pacatos municípios no interior do Mato Grosso, para observar os costumes dos seus habitantes, uma pesquisa que ajudou Janete Clair a pautar o comportamento dos habitantes da fictícia Divinéia.
- A cidade cenográfica de Fogo sobre terra foi construída no interior do Rio de Janeiro, em Barra de Maricá, que, na época, era apenas uma vila de pescadores com pouco mais de 30 casas. A cidade cenográfica acabou se tornando uma atração turística, recebendo visitantes nos finais de semana. Ao fim da novela, a região onde foram realizadas a maior parte das cenas adotou o nome da cidade fictícia e passou a se chamar Divinéia.
Curiosidades:
- A censura, que já havia proibido a sinopse de Fogo sobre terra um ano antes, teve influência decisiva na trajetória da novela depois que esta foi ao ar. A primeira intervenção ocorreu quando Pedro Azulão, para evitar a demolição de Divinéia, convocou os cidadãos da cidade a pegar em armas para defendê-la. Os censores viram nisso um estímulo à guerrilha e proibiram as cenas. Janete Clair teve que alterar a história, e o personagem terminou preso, acusado de invasão de domicílio, seqüestro e tentativa de homicídio. Quando, desiludido, o herói decide se sacrificar junto com a cidade, os censores intervieram novamente. Não queriam que o personagem se tornasse um mártir. No final que foi ao ar, Pedro desiste do plano pouco antes da inundação, mas a autora marcou sua posição fazendo a velha Nara persistir no seu protesto e morrer.
- Os cortes impostos pelos censores obrigaram Janete Clair a ter que reescrever em poucos dias capítulos já gravados. A autora se queixou em entrevista das interferências da censura: “É preciso dizer que não tem sido fácil escrever Fogo sobre terra. Por vezes o telespectador deve ter achado um capítulo sem nexo, truncado, e deve ter imaginado que eu enlouqueci. Não é fácil dizer a verdade. E, às vezes, ela vai ao ar mutilada por mil injunções. Em Fogo sobre terra, de uma só vez, tive que rasgar 12 capítulos. E muitas cenas saíram de minha máquina e não chegaram ao vídeo.”
- Dina Sfat atuou grávida de sua terceira filha durante a novela. Já Regina Duarte havia dado à luz a sua filha Gabriela há apenas 45 dias quando começou a gravar. Para dar conta do trabalho e das obrigações de mãe – ela tinha que amamentar a criança de três em três horas –, a atriz se mudou para o prédio em frente à emissora, no Jardim Botânico, onde eram gravadas as cenas de estúdio.
- Na sinopse proibida pela censura, o título original da novela era Cidade vazia. O novo nome foi decidido de uma forma inusitada. Daniel Filho conta que ele e Boni combinaram de jogar o I-Ching e batizar a novela com os elementos que aparecessem nos hexagramas. O resultado mostrou os elementos “fogo” e “terra”.
[Fontes: Depoimentos concedidos ao Memória Globo por: Daniel Filho (19 e 31/03/2000), Fábio Sabag (28/01/2002), Herval Rossano (29/01/2001), Ida Gomes (23/04/2001), Marcos Paulo (27/03/2006) e Regina Duarte (14/03/2005); ESQUENAZI, Rose. “As peripécias de Janete” In: Jornal do Brasil, 04/02/1995; FERNANDES, Ismael. Memória da telenovela brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1997, p.178; FERREIRA, Mauro. Nossa Senhora das Oito – Janete Clair e a evolução da telenovela no Brasil. Rio de Janeiro, Mauad, pp. 81-86; “Janete de Novo” In: Veja, 15/05/1974; Melhores momentos – A telenovela brasileira. Rio de Janeiro, Rio Gráfica Editora, 1980, pp. 217-218; MEMÓRIA GLOBO. Dicionário da TV Globo, v.1: programas de dramaturgia & entretenimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003; p. 49 e 50; www.teledramaturgia.com.br, acessado em 05/2006; www.us.imdb.com, acessado em 05/2006.]
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