Ficha-suja elege mulher e diz que cidade terá dois prefeitos
“Mas o prefeito de fato sou eu”, disse ontem à Folha o marido dela, Paulo de Oliveira, o Paulo Madeirol (PSD).
Para ele, a cidade só tem a ganhar. “Pela primeira vez Conde vai ter dois prefeitos, um homem e uma mulher.”
Paulo é um dos 68 candidatos a prefeito
considerados fichas sujas pela Justiça Eleitoral que desistiram de
recursos em instâncias superiores, renunciaram à candidatura na semana
da eleição e foram substituídos por familiares.
Além de Paulo Madeirol, outros 32 desses políticos conseguiram eleger esses parentes após a manobra, como mostrou ontem a Folha.
Paulo era o candidato até a antevéspera
da eleição. Barrado com base na Lei da Ficha Limpa, ele renunciou à
candidatura e nomeou a mulher em sua vaga. “Transferi quase 100% dos
meus votos”, disse Paulo.
Dono de uma loja de materiais de
construção (a Madeirol, que virou o nome “artístico” do casal), Paulo
foi prefeito entre 2001 e 2008.
Em 2003, um funcionário dele foi
flagrado quando retirava areia em área irregular. Acabou condenado e
enquadrado em um dos itens da nova legislação eleitoral.
Mesmo assim se empenhou na disputa. “Comecei a fazer campanha antecipada no ano passado”, afirmou.
Antes de Paulo, a Folha contatou a prefeita eleita, mas ela orientou a reportagem a procurar o marido.
Questionado sobre qual o envolvimento
que a mulher tinha com a política antes de se eleger prefeita, o
empresário foi direto: “Nenhum”.
Em Padre Paraíso (MG), Neia de Saulo (PT) substituiu o marido, Saulo (PTB).
“O povo queria ele, né? Mas como ele
estava impedido, eu substituí”, declara a mulher do ex-prefeito, barrado
porque teve as contas rejeitadas durante sua gestão anterior na cidade
(2005-2008).
Neia reconhece que o marido participará da administração. “Mas de longe”.
Já em Itabirinha (MG), o ex-prefeito
José Reis (PSDB) diz que vai participar mais de perto da gestão do filho
que o substituiu nas urnas, Edmo Reis (PSDB). “Vou ser o parceiro dele.
Vou fazer um trabalho voluntário.”
Em Boninal (BA), o ex-prefeito Ezequiel
Paiva (PP) desligou o telefone quando a reportagem explicou o motivo do
telefonema. Ele elegeu o filho Vitor, 26.
O juiz Márlon Reis, coordenador do
Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e um dos autores da Lei da
Ficha Limpa, considera “escandalosamente fraudulento” o mecanismo de
alteração de candidato às vésperas das eleições.
“O candidato muitas vezes sabe que não
pode concorrer, mas segura a candidatura até a última hora. E o eleitor
acaba indo às urnas para votar em um candidato e, na verdade, vota na
mulher ou no filho [deste candidato]“.
Reis disse que, para evitar esse tipo de
situação, é preciso haver alterações na Lei das Eleições. “O prazo
final para o registro de candidatura deveria ser anterior a junho,
quando se dá o início das campanhas. Assim, só sairiam candidatos
aqueles que tivessem condições de ser diplomados.”
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