A rua do Rosario, é uma rua que começa no largo da igreja do Rosario, que é uma igreja que foi feita e dedicada a os negros e pardos da cidade, na sua faxada ou portal de entrada tem alguns elementos da cultura africana, a igreja é bem rústica, com piso de tijolo batido com altar de São Benedito e o altar principal da Nossa Senhora do Rosario.
A igreja na nossa infância na década de 70 era um lugar esquecido, a sua porta era o nosso ponto de encontro, conversas brincadeiras, e até tirar um cochilo na porta de entrada.
Era o nosso ponto de referência na infância, na nossa adolescência e adulto, virou local de tomar umas boas garrafas de caranguejo e pitu.
A rua na nossa infância, nunca vi um lugar com tantas brincadeiras, o cardapio era variado, desde pembarra, nego fugido, futebol de rua, piloleta, futebol de botão...
O futebol de botão foi uma mania na rua do Rosario, e o nosso botão era diferenciado com a foto dos jogadores, fardados.
Os botões eram feitos por Nenco, que tinha uma qualidade incomparável, feitos de mica, ele colocava a foto no meio, uma coisa muito bem feita, tudo artesanal mas de uma qualidade incontestável.
Os campeonatos aconteciam nas casas dos meninos, tudo organizado, com juiz torcida taça, tudo simples mas muito motivante, fazer parte de tudo aquilo era como viver na terra do nunca do Peter pan.
E as brincadeiras eram por temporadas, temporadas de pipas, pronto o foco era só pipas, fazer a pipa de qualidade não era algo fácil, então tinha alguns que conseguiam fazer uma pipa com uma aerodinâmica boa, que fizesse as melhores acrobacias no ar.
O local escolhido da turma do Rosario para soltar pipas era o campo da Una, que ficava próximo ao banho morno.
O banho morno era um lugar sensacional, a água brotava do chão, os chamados minadouros, tinha um velho tanque, que tomávamos banho, lá cortei minha perna, quase morri.
O campo da Una era o nosso lugar preferido para bater uma bolinha, para chegar lá era uma aventura, tínhamos que descer a ladeira que beirava o sitio do Seu Acioli, que tinha essa estrada com a mata fechada, lembro que uma das vezes no inverno, tínhamos que ir com velas ou candeeiros para enxergar o caminho, isso uma hora da tarde.
Essas nossas idas ao campo da Una, muitas vezes nessa época de inverno não era nem para jogar, era para tirar uma soneca nas tocas que fazíamos no alto do morro, fazia uma cama de areia cavada ali mesmo, a área era quentinha, as tocas cobertas com palha de coqueiro ou palha de dendezeiro, geralmente era uma toca feita no morro mesmo que foi cavado por nós, Moisés era especialista, o soninho da tarde naquele lugar era algo parecido como dormir nas nuvens.
As temporadas eram variadas, a de carro de lata, essa era uma das melhores, com carros feitos de lata de óleo de comida, como dizíamos na época.
Vários meninos fazia carros bons na rua, mas o melhor era o Mudo de Barra Limpa, esse era um verdadeiro artista.
Os carros dele tinha amortecedores, para lamas, verdadeiras máquinas, era uma ostentação ter um carro daquele.
A temporada de pião, essa era mais agressiva, isso porque não se limitava aos meninos da rua do Rosario, vinha de todos os lugares, aí a disputa ficava perigosa, já que o objetivo da brincadeira era que o melhor jogador destruía o pião do outro, sempre dava confusão.
A temporada de bola de gude, essa era boa, agora tinha que ser um bom jogador, o jogo era meio golf mistura rádio com poche, a onde as vezes precisava uma certa força no dedo, e uma boa mira.
A temporada de castanha na rua do Rosario era uma festa, a disputa era na calçada, coloca uma castanha grande e aí tentava acertar, quanto mais errava, mais castanha juntava, e no final quem ganhava levava o saco cheio.
Na rua do Rosario tinha até moeda própria, dinheiro de carteira de cigarro, o valor dependia da raridade da carteira, quanto mais difícil achar a carteira, maior era o valor.
Com esse dinheiro, se negociava quase tudo, até comida, um dos meninos que morava enfrente a igreja do Rosario, fez um restaurante no quintal de casa, a onde a comida era de brincadeira, outro com inveja colocou um restaurante com comida de verdade, e o pagamento com dinheiro de carteira de cigarro, kkkk.
Tinha uma brincadeira, que depois que passa o tempo, você vê a relação com o passado, era o NEGO FUGIDO, era tipo uma brincadeira de esconde, esconde, só que muito mais dinâmica, já que o esconderijo poderia ser a cidade toda, e todos de adolescentes pra cima.
O aviso para se esconder era uma cantiga que se cantava bem alto, que dizia assim:
NEGO FUGIDO, CAPITÃO DO MATO, LA VAI O GATO PEGAR O RATO...
E aí começava a caça aos escondidos, isso passávamos a noite toda se escondendo, e tinha meninos que não conseguia achar ninguém, e todos voltavam pra casa.
A igreja do Rosario, na década de oitenta, passou a ser administrada por homens da comunidade católica, foi teatro, e dali ressurgiu a procissão do fogaréu, e a chegança em tempos áureos, a onde tinha até um navio tipo um carro alegórico, a onde tinha um trono do eterno rei Déia.
A rua do Rosario era um celeiro cultural, além de rua da garotada, que depois virou galera.
O famoso forró da galera a turma criou com um pé de serra, e depois virou um mega evento, com locução do melhor e mais respeitado locutor da época, o nosso amigo Amilton Andrade, na época locutor da Liberdade FM.
No forró da galera passou, Passarada do Ritmo, Cabeça de Frade, Ednaldo do acordeon..
E o bar do Gebas na rua do Rosario, o melhor bar das galáxias, com um dominó disputado, porrinha, e uma boa conversa, isso era certo.
Com mesas e cadeiras na calçada, o que era um atrativo, ninguém da rua, deixava de passar por lá no final de semana.
Lá na parte de cima, indo para praça da bandeira o pastel do Adolfo, pastel de sururu.
A rua do Rosario nessa época era o berço cultural da cidade, com teatro, a paixão de Cristo, começou suas apresentações na igreja do Rosario, lembro de ir assistir juntamente com minha bisavó, ela estava feliz em poder ver a apresentação da peça.
A rua do Rosario como falamos era sede da chegança, do forró da galera, da festa dos santos reis.
O São João em São Cristóvão, tinha que passar pela rua do Rosario, a guerra de buscapé, o famoso mastro, começou na rua do Rosario, a onde se fechava a rua, como uma arena romana, os buscapés eram a besta feras, e a caceteira que pode tocar em qualquer lugar, mas ouvir o som da caceteira na rua do Rosario era diferente.
Na rua do Rosario tinha o armazém de seu Amintas, que depois passou para Seu João, era um armazém sortido, que era praticamente um mercadinho da rua.
Tinha ainda o armazém do Seu Acioli, que logo passou para o seu filho Ailton que virou poit de farras e farras.
A rua do Rosario foi palco da primeira manifestação pelo meio ambiente de São Cristóvão, isso mesmo.
Quando um político da época, tinha uma casa na rua tipo escritório, ficou incomodado com uma árvore que dava sombra para a turma bate papo, e ficava na frente da casa dele, a árvore amanheceu cortada, pronto, foi o estopim.
A turma da rua, junto com o PT da época, recém fundado, e com alguns militantes moradores da rua, fizeram o funeral da árvore, com discursos, velas e carro de som.
Não sei se foi por isso, mais o político não se reelegeu, demostrando uma revoltada com a atitude os jovens da rua praticamente o baniram, a rua fez a primeira manifestação contra o abuso contra o meio ambiente, e a rua do Rosario produziu muitas pessoas com uma consciência política diferente de outras partes da cidade.
A geração que viveu tudo isso, sabe do que estou falando, a rua do Rosario, nesta época foi sem dúvida a fonte cultural, política e social da cidade, tudo por conta das pessoas que viveram ali naquele momento, naquele contexto.

Comentários
Postar um comentário