UM POUCO DO TEMPO, PRAÇA SÃO FRANCISCO

 


Essa imagem durante muitos anos fez parte da minha vida, esse vai e vem desse senhor, todos os dias, essa era a visão de movimento na praça São Francisco.

Lembro de ficar horas e horas olhando para o nada, de vez ou outra, aparecia alguém, e esse carregador de água era muito conhecido na cidade, levava água para beber em quase todas as casas Vavá da jumenta.

Esse tempo a cidade tinha ares de lugar esquecido, parado no tempo, a grande diversão era sentar na porta, conversar com amigos, vizinhos, a onde se ouvia as anedotas mais mirabolantes.

O interessante é que a história da cidade em tempos bem antigos sempre era tema dessas conversas.

Na praça São Francisco, morava muita gente nas redondezas, famílias numerosas, que nunca deixavam a praça vazia, aos finais de tarde e a noite.

O interessante é que a cidade, ou o centro histórico, não é grande, mas quando criança, tudo parecia imenso, lembro da rua de vila nova que tinha um barrocão profundo, e aterrorizante, esse barrocão sempre pegava fogo, isso porque o povo jogava lixo e depois alguém queimava, era um terror.

A praça São Francisco, não era a mais movimentada, mas era a que mais se identificava com a nossa turma.

Essa rua ao lado do museu, e da minha casa no final tinha uma escola que foi uma das melhores nessa época, a escola reunidas, muito boa, nessa época a cidade não tinha escolas particulares, e essas escolas tinham uma equipe de professores que na maioria eram verdadeiros sacerdotes.

A rua no fundo do orfanato, Rua Pai Tomé, é uma rua curta, mas na época muito povoada, famílias imensas moravam ali, o que contribuía para o movimento da região da praça São Francisco.

A praça teve a sua discoteca, a onde hoje é a biblioteca pública, o Dancing, e ali próximo na rua Cel. Erundino Prado a onde hoje funciona uma escola particular, o Clube recreativo, que era o point de encontro das grandes festas, bailes, carnaval e tudo que era evento.

Aos finais de semana, funcionava uma discoteca e aos sábados quando não tinha baile, e aos domingos uma matinê, aí menores podia ir, o melhor ficava na entrada, uma verdadeira praça de alimentação, com a banca de batidas e sardinhas torradas da D. Lizete, a pipoca e cachorro frio de D. Rosa, o cachorro frio e a pipoca com pimenta de Seu João, era uma diversão.

Aos domingos a tarde na esquina de Dona Geninha da queijada, ficava Dona Filó com seu cachorro quente rolete de cana e amendoim torrando.

Dona Geninha a sua queijada maior que uma mão, era o nosso MC Donald's, uma delícia, incomparável, um sabor único.

Aos domingos nessa época o almoço em família já tomávamos uma Coca-Cola, só que o modo de comprar era diferente, não tinha coca de dois litros, então levávamos um vaso de água, e aí Seu Otacílio que tinha uma bodega no fundo do museu, enchia de coca e todos tomavam, o interessante era que o gás não saia facilmente.

Na praça teve duas lojas, e outra próxima a praça enfrente ao bar vitória, a loja de um libanês que vendia a prestação na cidade.

Próximo a praça São Francisco, também tinha um Bumba, isso mesmo, um lugar que produzia vinho de genipapo, e ainda lembrando do bar vitória que era um ponto de encontro, e foi local de grandes bailes de carnaval, de um bom bilhar e uma boa conversa, ficava mais próximo a praça da matriz, mas está entre as duas praças.

A praça São Francisco sempre foi o ponto de encontro das imagens de Nossa Senhora das Dores e do Senhor Dos Passos, ou seja acostumada a grandes movimentos.

A praça foi o local da visita do imperador D. Pedro II, e ali ele declarou que foi um erro mudar a capital de São Cristóvão, e disperdisar tantos prédios.

Logo depois chegou o FASC, festival de artes de São Cristóvão, que trouxe a cultura de vez ao seu lugar, aí a praça nunca mais foi a mesma.

Virou símbolo da cultura e da identidade do povo sergipano, deixando de ser aquele lugar bucólico, e melancólico para voltar a ser protagonista no cenário brasileiro.

Com o reconhecimento pela UNESCO que concedeu a chancela de patrimônio da humanidade, algo merecido, mas o que deixa cada vez mais o povo distante da sua praça é a blindagem do lugar, que sempre foi palco dos grandes eventos na cidade.

Ah, que saudade do tempo que esse senhor passava com sua jumenta cheia de água, e as coisas andavam no ritmo das ruas, bem devagar.


Direto da redação

Direto da redação

Jornalista e colaborador do portal, cobre as principais notícias do dia.

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