Vânia Azevedo
Dezembro chegou trazendo à Sergipe muitas chuvas, o que deixou a população da Cidade Mãe de Sergipe apreensiva para a realização do 37º Festival de Artes de São Cristóvão (FASC), e com ela uma imensa expectativa de repetir o sucesso dos anos anteriores.
São Cristóvão vestiu-se para o primeiro dia de FASC com nuvens carregadas e, desde as primeiras horas da manhã já sinalizava que teríamos um dia chuvoso,que os pardais na Praça da Matriz desfrutavam com tranquilidade a brincarem nas poças d’água, alheios a toda agitação que o dia prometia. Enquanto isso, o STAFF da organização do eventos e virava nos trinta, com o intuito de dar o toque final para que a “velha senhora” estivesse pronta para recepcionar seus convidados e oferecer-lhes o aconchego necessário, sobretudo o acolhimento devido à diversidade que caracteriza o evento.
Dentre as preocupações, preparar um variado programa capaz de atender aos desejos de gregos e troianos, além de produzir um cenário de oportunidades cujo propósito seria não permitir que a idade viesse a ser um fator de exclusão. Que todas as tribos interagissem em plena harmonia e que o respeito entre as pessoas fosse a grande sacada – o que, notadamente, ocorreu -, constituindo-se um feito grandioso de rara beleza. Um evento de resistência, cujos artistas convidados entenderam muito bem a sua proposta, e celebraram o momento efusivamente junto à massa.
Se a expectativa quanto ao programa é fator determinante para o sucesso de qualquer evento, no FASC, transformar as ruas da cidade em uma imensa passarela por onde desfila todas as idades, todas as tendências e todas as verdades, é algo que por si só confere ao FASC um caráter libertador. Afinal, não é todo dia que se vê uma multidão se divertir, transitando lado a lado, divergindo em hábitos e costume e, no entanto, nem por isso inviabilizar essa convivência que se estende pelos quatro dias do FASC; onde não há lugar para violência ou notificações de roubos e furtos (o que seria até certo ponto compreensível quando se observa a situação econômica do país e o uso de bebidas alcoólica). E por falar em bebidas, o “pisa macio”, a bebida da casa, volta a garantir seu protagonismo, constituindo-se um grande sucesso entre os apreciadores de uma boa bebida.
Contudo, o que fica evidente é que aqueles que vão ao FASC sabem exatamente o que buscam: desde a aceitação inconteste à proposta do evento (especialmente os artistas convidados, que ratificaram suas presenças com mensagens de paz, de fé no resgate de projetos sociais excluídos no governo atual, no resgate dos direitos humanos atropelados pela truculência de um governo cuja proposta de cultuar a violência tem desvirtuado os costumes do povo brasileiro), até mesmo o direito à livre expressão eo respeito às minorias.
Os dias inicialmente chuvosos deram lugar ao calor que se confundia com a temperatura de corpos agitados e coloridos, desde a diversidade no vestir até a cor da pele ou o look dos cabelos de cores multifacetadas [próprios de um dia às portas do verão], onde ser diferente é garantia de aceitação total. E quando a noite caía, até a lua parecia mais bela e tão intensa quanto os seus admiradores, a ponto de nos fazer crer que sua beleza era parte do projeto.
Sob o canhão de luz natural do luar, tendo no firmamento o testemunho do que ao nascer do sol já não iria lembrar [porque a energia do momento era restrita àquele intento], o prazer do momento era expressado em emoções desordenadas e promessas inconsistentes, escritas numa linguagem corporal digna de suplantar o próprio Aurélio. Era o apogeu do FASC.
Atender a todas as tendências parece ter sido uma tese defendida com louvor. Transcorrendo da forma mais eclética possível, o 37º FASC atendeu as reinvindicações da classe artística e as manifestações culturais contemplaram a todos os gostos. A estrada do prazer encontrava artérias distintas, levando cada um ao destino desejado: da meditação nos espaços bucólicos, passando pelas artes nos quatro cantos da cidade, para desembocar na noite, onde a passagem de ida para a esbórnia era só uma questão de seguir a seta da intuição e do prazer, indiferentes aos esgares de desprezo das mentes conservadoras. Desconstruir preconceitos e surfar nas mais distintas waves, estava implícito no manual de convivência de todos que optaram por embarcar naqueles quatro dias de uma viagem insólita.
Aos organizadores, os merecidos aplausos por apostarem em artistas sergipanos e, eminentemente, aproveitando o gancho da Copa do Mundo, marcarem um belo gol de placa com a inclusão de artistas da cidade: com destaque para Saulinho (que agitou a tarde de domingo no palco da Praça do Carmo), e a banda já consagrada internacionalmente, The Baggios, confirmando o sucesso a que faz jus.
E quando a segunda-feira chegou, a cidade parecia deserta e abandonada. Enquanto os comerciantes celebravam as boas vendas, aqueles que cederam suas casas em troca de expressiva remuneração, vislumbram um Natal mais feliz.
Em cada calçada, em cada praça, em cada rua, apenas vestígios do que marcou um acontecimento ímpar. Reminiscências que abasteciam generosamente as mentes que habitavam corpos cansados e sonolentos, num silêncio que se estenderá até que a “velha senhora” se dê por revigorada da overdose de cultura, de alegria e de liberdade que propiciou; do que foi o 37º Festival de Artes de São Cristóvão, elemento propulsor de visibilidade para o artista sergipano.
Já as aves, que habitavam as nossas praças, não sei onde se refugiaram enquanto seus espaços estiveram invadidos por dias singulares e noites de amores efêmeros. Todavia, acostumadas às intempéries do clima, não deve ter sido difícil sobreviver a um terremoto cultural. Perseveraram, e finalmente o sol nasceu na manhã de segunda feira (entre intervalos de chuvas que mais parecia um lamento pelo fim da festa), trazendo-as de volta às suas árvores e às suas vidas. Um dia marcado pelo silêncio contumaz na Cidade Mãe, só quebrado pelas batidas do relógio da Matriz de Nossa Senhora da Vitória.
Que venha o 38º FASC!
Vânia Azevedo é professora.

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