FREI JOSE DE SANTA CECILIA HERÓI SANCRISTOVENSE PARTE I

 

 


Thais Rabelo; Edite Rocha; Fernando Duarte

Introdução

Nascido na antiga capital sergipana, São Cristóvão, José Pacífico de Sales (1809 – 1859) recebeu o nome de José de Santa Cecília quando se tornou frade franciscano. Filho de Manoel Cyriaco de Salles Neúma e D. Maria de São José Salles, “engeitada [sic] da roda da Misericórdia” (COSTA FILHO, 1920, p. 79) “Frei Santa Cecília” – como se tornou conhecido para muitos, no estado de Sergipe –, foi descrito poeticamente pelo historiador Manoel dos Passos de Oliveira Telles, na sua primeira edição de 1903, em termos como: “Sua estatura real é imensuravel justamente pela falta de uma bitola. Não é tão antigo como uma tradição nem novo como uma esperança; mas nós, se o conhecemos é ennevoado e esquivo, embora com esse colorido prismático da luz que se côa através de gotas tenuissimas” (TELLES, 1900/2013, p.65). As informações gerais ainda abordam o início de seus estudos em São Cristóvão, cursando aulas de Latim com Ignácio Antonio Dormundo, insigne pregador (COSTA FILHO,1920, p. 79).

Destacou-se como orador sacro, e também atuou como professor, poeta e, de modo particular, como músico. Contudo, apesar de tratar-se de uma personalidade reconhecida no meio sociocultural sergipano, o levantamento bibliográfico permanece ainda escasso relativamente a este frade. Assim, realizamos diferentes abordagens metodológicas para compilar vestígios da sua atuação: 1) pesquisa hemerográfica em jornais de época que circulavam principalmente na primeira metade do século XIX na Província de Sergipe (reconhecidamente importantes testemunhos da atuação de frei José de Santa Cecília); 2) investigação em arquivos como Museu da Polícia Militar de Sergipe e no Arquivo da Sociedade Filarmônica de Sergipe; 3) narrativas de memorialistas sergipanos publicados entre finais do séc. XIX e início do séc. XX (que apontam, inclusive, para ca- racterísticas bastante pessoais do religioso, como traços de sua personalidade, timbre de sua voz e jargões utilizados por ele), e 4) a pesquisa musicográfica, referente a repertórios musicais que possam direcionar para autoria deste compositor ou contexto musical.

José de Santa Cecília é descrito por alguns memorialistas como um homem ímpar, seja em termos de sua personalidade, seja pelas diversas funções que exerceu ao longo de sua vida, destacando-se principalmente como orador sacro, fama que se espalharia por toda província e até mesmo na Corte. Os escritos memorialistas locais consultados e seus respectivos trabalhos foram: Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1859-1935), em seu livro Sergipenses – escritos diversos, Prado Sampaio (1865-1932), em Sergipe – Artístico, Litterario e Scientifico, Sílvio Romero (1851-1914), em sua obra Parnaso Sergipano, em dois volumes, Luiz José da Costa Filho (1886- 1948), em seu artigo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográ- fico de Sergipe em 1920, Armindo Guaraná (1848-1924), no Dicionário Bibliográfico Sergipano, e Serafim Santiago (1859-1932), em seu Annuário Christovense. Em relação às fontes musicais, as pesquisas nos Museu da Polícia Militar de Sergipe e no Arquivo da Sociedade Filarmônica de Sergipe revelaram partituras contendo obras atribuídas ao frei Santa Cecília. A pesquisa hemerográfica se concentrou nos jornais disponibilizados pelo site da Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional.

Neste âmbito, o propósito de elaborar um levantamento biográfico a respeito do Frei José de Santa Cecília, abarcará, naturalmente, a sua componente de atividade religiosa, docente, bem como sua produção: discursos e produção lírica. Consequentemente, buscamos contribuir para um conhecimento mais amplo em torno da vida e obra desta personalidade através de questionamento como: quais memórias acerca do frei José de Santa Cecília se conservam nas fontes documentais e hemerográficas e como sua atividade musical pode ser revelada por meio dessas fontes? Neste sentido, esperamos, por meio deste trabalho, contribuir para a memória sobre o frei José de Santa Cecília, presente ainda na atualidade na memória oral sergipana, marcada pelo seu hino, mas ainda pouco estudado e aprofundado sobre sua vida, obra e atuação.

Formação e Carreira

De acordo com Armindo Guaraná (1925, p. 347), Frei José de Santa Cecília foi funcionário público, tendo sido nomeado em 1826, antes de entrar para a Ordem Religiosa de São Francisco. Nas palavras de Luiz José da Costa Filho, os atributos da reconhecida inteligência do frei Santa Cecília, facilitaram a obtenção do seu posto de escriturário, cargo este de destaque e em gradual expansão nos inícios do século XIX, particularmente pós-independência, pela literacia das suas funções:

Dotado de intelligencia pouco commum, e de outras qualidades, que o recommendavam ás sympathias geraes, principalmente dos encarregados do poder publico que naquella época davam mais apreço do que hoje ao merecimento real, foi sem esforço que obteve collocar-se na Secretaria das Armas de Sergipe, por nomeação do respectivo commandante Ignacio José Vicente da Fonseca, em 16 de Fevereiro de 1826, para o logar de Praticante da mesma repartição, vago pelo accesso a 2o Escriptuario, do respectivo serventuário Antonio Gonçalves Dormundo (COSTA FILHO, 1920, p. 79).

Contudo, José Pacífico de Sales deve ter permanecido nesse cargo cerca de um ano, optando por entrar para a vida religiosa, cuja referência remonta à data de 1o de março de 1827, quando fez a sua profissão religiosa no convento de São Francisco na Bahia. Foi nesta nova etapa que adotou o nome religioso vinculado a Santa Cecília, padroeira dos músicos, sugerindo a possibilidade de que Frei José já possuiria habilidades musicais antes do ingresso na vida religiosa.

Costa Filho destaca o então brilhantismo do recém professor frade franciscano que o levou a aprofundar-se nas matérias que o conduziram ao sacerdócio, tendo sido incluído no número dos colegiais a cursar a Filosofia, cujo renomado professor o Fr. Luiz de Santa Teresa era Pregador Imperial e, posteriormente, tendo cursado também Teologia, História Eclesiástica e Teologia Dogmática (COSTA FILHO, 1920, p. 80). Depois de terminar os estudos foi nomeado professor do curso no ano de 1835, “sendo-lhe designada a cadeira de Theologia Moral pelo Capitulo intermédio de 1 de Junho” (COSTA FILHO, 1920, p. 80).

O frade “celebrou sua missa nova em S. Cristóvão na igreja do Rosário a 6 de janeiro de 1835”4, tendo sido nomeado presidente do convento de S. Cristóvão (SE) em junho de 1840 (GUARANÁ, 1925, p. 347). Em 1845 tornou-se guardião do Convento de Penedo, função que recebera em Novembro do ano anterior e lá passou a lecionar Latim, na aula pública do mesmo convento em 1846 (COSTA FILHO, 1920, p. 85). Em 1849, retornou ao convento de São Cristóvão, onde foi também eleito guardião e nesse mesmo ano ministrou aulas de Latim no ensino privado, na cidade de Laranjeiras, cuja narrativa inclui também o ensino de Música na grade:

Huma ou outra aula particular de primeiras letras, e mesmo os estudos maiores, sei q’há em diversos lugares da Provincia, como por exemplo, na cidade de Larangeiras, onde o ex-Secretario do Governo desta Provincia, Braz Diniz de Villas-boas, tão versado nos clássicos Latinos, dá lições des- sa lingoa a vários alumnos, assim como o Reverendo Fr. José de Santa Cicilia, que ali, ensinando alguns preparatórios, deduz de suas letras parte dos inicios de sua subsistência. Mas de nenhuma dessas aulas tenho cabal informação, que possa communicar-vos. Estou, porém, habilitado a informar-vos, que com o titulo de – São Christóvão – existe nesta cida- de hum collegio, sob a direcção do actual Director do Lyceu, onde se ensinão – primeiras letras, Lingoa Latina e Franceza, Philosophia racional e moral, Rhetorica, Musica e Dansa - , propondo-se também o respectivo Director chamar Mestres, quando for mister, para Geographia e Inglez: as aulas do Collegio são frequentadas por mais de 50 allunos. [...] (O COR- REIO SERGIPENSE, 28 de Março de 1849, p. 2).

Alguns registros foram confirmando que as atividades de pregador, paralelamente à produção de poesias e composições musicais de Frei José, se encontravam presentes por todo o estado do Sergipe, como publicado no Correio Sergipense (14 de Setembro de 1859, Ano XXII, no 58, p. 4) que o relembra como “um dos mais eloquentes oradores da tribuna sagrada, a quem temos ouvido nesta província. Era versado nas letras santas e profanas e bom poeta”.

Dias antes de morrer, depois de sacramentado, quando seos irmãos, sabendo de seo estado, o forão vizitar, elle os recebeo de face serena, espirito tranquilo, e rizo angelico, com a seguinte quadrinha”: ‘Já disse adeos ao Parnazo,/ E pendurei minha lyra;/ Agora vou respirar/ Onde o Eterno respira.’ As lagrimas correrão de todos os olhos e elle, continuando disse: De que chorão? Isto é tão natural; tranquilizem-se: estou despedindo me do mundo de enganos, para os ir esperar na verdadeira mansão (CORREIO SERGIPENSE, 14 de Setembro de 1859, p. 4).

A causa de sua morte é desconhecida. Contudo, pela literatura encontram-se referências a um modelo comportamental contrastante ao invocado no anúncio de sua morte: Costa Filho atribuiu a doença que o teria vitimado à vida desregrada vivida pelo frade ao longo dos anos, com hábitos de juventude que não havia perdido (COSTA FILHO, 1920, p. 85). Com uma informação que andou adoentado logo após seu retorno à Bahia, em 1836, Costa Filho relata que a situação de saúde voltaria a se acentuar a partir de 1850: “Por esse tempo sua vida era bastante desregrada, entregando-se com excesso aos prazeres do amor e de Baccho, e começou aos poucos a avariar-se-lhe a saúde, já sensivelmente alterada, bem que no gôso de suas forças phisicas” (COSTA FILHO, 1920, p. 85).

Contextualizando esta situação, relembramos que tais hábitos, que podem parecer estranhos para o catolicismo atual ou padrão pessoal, eram uma prática recorrente na igreja do Brasil Oitocentista, justificando pela qual não encontramos passagens críticas ou de julgamento ao com- portamento do frei José de Santa Cecília nas notas de imprensa da época. Anteriormente à Romanização – autocompreensão católica efetivamente instalada no Brasil no último quartel do século XIX –, até mesmo o celibato clerical era questionado ou, muitas vezes, ignorado pelos sacerdotes. “Quando os deputados, padres e leigos, propunham para a Igreja a dispensa do celibato sacerdotal, referiam-se a uma realidade: a maior parte dos eclesiásticos vivia em matrimônio e nem procurava ocultar esta condição” (HAUCK et al., 2008, p.88). No entanto, é preciso ressaltar que, para além da menção feita por Costa Filho à vida desregrada do frei sancristovense, entregue aos prazeres do amor e do vinho, não encontramos nenhuma outra menção. Acreditamos que, por residir majoritariamente no conven- to, o frei José de Santa Cecília não chegou a constituir família paralela à sua vida religiosa.

CONTINUA...


Xilogravura de Nivaldo Oliveira


Direto da redação

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Jornalista e colaborador do portal, cobre as principais notícias do dia.

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