Thais Rabelo; Edite Rocha; Fernando Duarte
Aspectos particulares
Cidadão sancristovense, religioso, pregador inspirado e crítico, músico destacado em sua geração, homem de ideias fortes, palavras fortes, mas, ao mesmo tempo, reservado: este é um perfil que pode ser traçado sobre o frei José de Santa Cecília a partir das narrativas escritas a seu respeito e cujo nome ficou perpetuado no nome de uma rua do município em que nasceu.

Fig. 1: Placa da Rua Frei José de Santa Cecília (que liga a praça da Matriz à praça São Francisco), em São Cristóvão
Algumas fontes, inclusive, conferem uma descrição ainda mais detalhada a respeito do religioso, apresentando aspectos pessoais e traços de personalidade, como relatado por Oliveira Telles que o descreve como “um typo acabado do sergipano, aventureiro; mas despretensioso, pouco importando-se com a glória [...] descuidoso, negligente, desleixado, de modo que quem o visse maldara logo um erro de vocação, um ressentimento contra a sorte” (TELLES, 1900/2013, p. 65). O legado deste frade, segundo Prado Sampaio (1908/2012, p. 60), parece ter sido escasso: “Sancta Cecilia foi um espírito rebelde, que se fixou no passado encaixilhando-se na lenda, sem que no mundo houvesse deixado espolio intelectual ou artistico”. Mas o reconhecimento social da sua atuação aparece reiterado, como por Sílvio Romero que enquadra o talento deste frade no contexto sergipano - “Dotados de genio musical e genio lyrico, os sergipanos em todos os tempos deram bellas provas de talento e de optimas qualidades de espirito de caracter. Em S. Christovam, - frei Santa Cecilia, na musica, na poesia, e no pulpito, revelava as brilhantes qualidades de um espirito de selecção” (ROMERO, 1899, p.6) - ou Prado Sampaio (1908/2012, p. 62) que atribuiu ao frade a característica de um homem cheio de talentos: “destaca-se dominando a scena, o talento polymorphico de Frei José de Sancta Cecília”.
Ao descrever as celebrações religiosas anuais do mês de Novembro na antiga capital de Sergipe, Serafim Santiago aborda de forma particular a festa em honra de Santa Cecília, padroeira dos músicos, cuja relevância local era assumida por Frei José como protagonista, e pela participação de uma orquestra para valorizar musicalmente este evento. Apesar do descompasso temporal entre a vida deste frade (1809-1859) e o autor desta narrativa (1859/1932), as cenas memoriadas por ele foram fundamentadas na transmissão oral de antigos moradores da cidade, que teriam convivido com o frade.
O enthusiasmo dos Mestres acompanhados pelos discipulos e discipulas era extraordinário no referido dia 22 de Novembro, quando se effectuava com a maior pompa possivel a festa da Mestra Italiana – Santa Cecilia, na Egreja do Amparo naquela Cidade, onde ainda hoje é moradora! Das antigas festas falarei por tradição. Diziam alguns anciãos d’ali, que um dos maiores influentes da referida festa, era o insigne musico compositor, e orador sacro, e finalmente o inspirado poeta, Frei José de Santa Cecilia [...]. Era elle, assim afirmavam os anciãos meus patrícios, o orador na festa de Santa Cecilia. No dia da festa, via dar entrada no púlpito da Egreja do Amparo o melhor orador sacro em toda a Provincia, digo, sem lisonja, este prendia a attencção dos ouvintes com sua inspirada palavra. Os musicos da orchestra o recebiam-no ao surgir no pulpito com a conhecida ouverture denominada “Santa Cecilia”, para mais enthusiasmo causar o pregador – Cecilia (SANTIAGO, 1920/2009, p. 306).
Como remanescente desta prática, a então imagem de Santa Cecília, mencionada por Santiago como pertencente à Igreja do Amparo, encontra-se resguardada como peça do acervo do Museu de Arte Sacra de São Cristóvão.

Fig. 2: Imagem de Santa Cecília - Museu de Arte Sacra de São Cristóvão
Também o músico, “Tesoureiro e Zelador da Confraria do Amparo”, Saturnino José de Amorim, a quem Santiago se refere como “velho amigo”, lhe contou algumas passagens sobre o passado de São Cristóvão e, de modo particular, sobre o frade José de Santa Cecília. A citação a seguir se refere a um dos festejos em honra da padroeira dos músicos, sempre celebrado na antiga igreja do Amparo, e que contou com a participação do próprio Saturnino:
[...] em uma das festas de Santa Cecilia, estando elle, Saturnino, fazendo parte da orchestra, quando se aproximava a hora de vir ao pulpito o Frei Santa Cecilia, o mestre da musica dando pela falta , mandou-o em uma casa que fica quasi fronteira á Egreja do Amparo, onde naquelle tempo morava a veneranda D. Maria Salles “Nenéu”, progenitora do Frade Franciscano. Ao chegar o Saturnino na porta, bateu palmas, pedio licença e disse: “Padre mestre, está quasi na hora”; respondeu o Frade que, naquelle momento ainda estava – á fresca: “serei breve, meu poeta”. Dizia o velho Saturnino, “que notara que aquella hora o frade estava já alccolisado, e com tudo não se fez esperar, vestio pressuroso o burel, tomou na sacristia da visinha Egreja do Amparo a rica sobrepelliz e a estola, procurou a próxima occasião de apresentar-se no altar-mór, ajoelhou-se reverente para receber a benção do Celebrante; foi neste momento que ouviu-se a afinadíssima orchestra executar a predilecta ouverture do Frade Franciscano “Santa Cecilia” (SANTIAGO, 1920/2009, p. 306).
Ao final de sua fala, que, segundo Santiago, teria durado em torno de uma hora, tendo como tema central o valor da música, discorrendo sobre a “mestra italiana” Santa Cecilia, um dos ouvintes teria comentado: “O Frei Cecilia, na minha oppinião, não pregará outro igual, o frade estava inspirado” (SANTIAGO, 1920/2009, p. 306).
A citação anterior também fala a respeito da casa onde, possivelmen- te, José de Santa Cecília teria morado parte de sua vida. A casa de sua mãe, que ficava na rua do Amparo.
Fig. 3: Fachada da Igreja do Amparo Fig. 4: Interior da Igreja do Amparo - altar principal
Considerando a afirmação de Luiz José da Costa Filho (1920, p. 80), que “Por ser amante da musica, foi que escolheu para a vida que adaptara o nome de Santa Cecilia, padroeira da divina arte”, inferimos que sua relação com a música e tão presente devoção a Santa Cecília se tenha iniciado ainda na juventude de Frei José e se firmado ao longo dos anos, muito através destes eventos regulares. Numa outra referência a esta fes- ta anual, encontramos um anúncio no Jornal Correio Sergipense de 1842 que revela mais detalhes sobre o papel que Frei de Santa Cecília foi assumindo, como a função de “Juiz da Festividade da Gloriosa Santa Cecilia”. Neste caso, representando o principal organizador da festa e destacando que essa celebração seria mantida na capela do Amparo, templo de uma irmandade de homens pardos (e não de africanos escravizados), fazia sen- tido que a festa fosse voltada para os músicos (categoria profissional de menor condição econômica), e não nos maiores templos da cidade.
O baixo firmado, sendo o Juiz da Festividade da Gloriosa Santa Cecilia, que se há de solemnizar no próximo Domingo 20 do corrente mez na Capela de Nossa Senhora do Amparo, conhecedor dos sentimentos Religiozos, que muito destingnem os illustres habitantes d’esta Capital, convida a todos, rogando-lhes se dignem abrilhantar o festivo acto d’esse Dia com suas assistências, e Familias, o que mutio agradará a Deos, edificará o culto da Religião, e penhorará ao mesmo abaixo firmado, que agradecido lhes beijará as mãos. Sergipe 16 de Novembro de 1842. Fr. José de Santa Cecilia. (O CORREIO SERGIPENSE, 16 de Novembro de 1842, p.4).
Ainda, como traço da personalidade de José de Santa Cecília, o memorialista Santiago registra uma visita que teria sido feita por Zacarias de Góes (1815-1877) – que atuou como Presidente da Província de Sergipe entre 1847 a 1849 – ao frade Santa Cecília, por quem teria grande 19 admiração. Essa visita, intermediada por um cidadão cristovense, amigo íntimo do Frei de Santa Cecília, demonstra a determinação de Santiago em atestar o reconhecimento de um frade que não obstante o seu talento em vários domínios e permanecer numa área geográfica aquém da sua competência, voluntaria e humildemente assume uma posição discreta ao serviço da sua função.
Em uma tarde, dirigiram-se para o Convento de São Fran- cisco naquella cidade, o conselheiro e o christovense e lá em uma das cellas onde se achava o famoso sacerdote, o christovense bateu palmas pedindo licença para dois. O frade suppondo que ambos eram seus patricios e amigos, disse como era costume: “Podem entrar meus poetas...” Ouvindo isto S. Ex. fez um ligeiro ar de riso, vendo o modo porque o philosopho do frade tratava seus patricios. Feito o ingresso, foi S. Ex., appresentado ao frade pelo christovense seu intimo amigo que disse-lhe: “Trago aqui S. Ex., o conselheiro Zacha- rias de Góes e Vasconcellos, que muito desejava conhecel-o pessoalmente para ter uma entrevista. Feitos os cumprimentos do estylo, disse o frade: “esta amável entrevinda de V. Ex. neste cubículo é muita honra que dá a um despresivel frade franciscano, homem sem nome e sem posição social. A es- tas palavras, respondeu S. Ex: é verdade que ha muito tempo desejava conhecel-o, pois a fama de V. Rema. não está somente aqui em Sergipe, estendendendo-se em todo o Brazil e fora d’elle. Abraçaram-se amistosamente os dois homens de lettras e encentaram uma agradavel palestra. Já estando em tão pouco tempo, bem familiarisado o conselheiro Zacharias com o frade – Frei Cecilia, e conhecedôr do talento deste christovense, pedio venia ao novo amigo, e disse: “Padre, queira desculpar, não seria melhor trocar este burel por um diploma de Bacharel em sciencia sociaes, seguindo em minha companhia para a Côrte, a conquistar o referido diploma, contandoo amigo com as minhas diminutas forças para auxilial-o? O frade tornou-se submisso e respondeu: “Exmo. Senhor, não me é possivel aceitar a proposta de V. Ex. estou convicto de que nasci para ser frade, e aqui neste cubiculo onde V. Ex. me encontrou, espero exalar o ultimo suspiro”. Aproximava- -se o toque de Ave-Maria, quando os visitantes conheceram estar chegada á hora das obrigações do religiozo; trataram das despedidas, dizendo o frade ao Presidente; “breve irei retribuir a visita de V. Ex. Deus os levem. Voltando-se para o patricio christovense disse: “poeta passar bem” (SANTIAGO, 1920/2009, p. 332-333).
Em outros momentos do Anuário em que Santiago discorre sobre o frade, também é salientado por esse memorialista o característico modo de Frei José se dirigir aos seus conterrâneos com a frase: “meu poeta!”. Seu carisma é observado não apenas enquanto orador, mas como contendo uma personalidade ambígua, tanto na simplicidade da sua função como frade como de um carácter forte e determinado, aventureiro e até rebelde, tanto na sua distinta formação acadêmica, intelectual, dotado de muitas habilidades e ao mesmo tempo sensível e acessível aos seus como um homem popular e querido por muitos de seus patrícios. Alguns desses relatos se referem, inclusive, à voz do famoso orador.
Serafim Santiago, a partir da descrição feita pelo músico Saturnino sobre a festa de Santa Cecília, destaca que “O som metálico de sua vós agradava, como sempre, aos ouvintes; as imagens que pregava, muitas vezes sublime, deixando os presentes devotos de Sta. Cecilia com o espirito suspenso” (SANTIAGO, 1920/2009, p. 307). Característica esta confirmada por Oliveira Telles (1900/2013, p. 66) que adicionaria “que ao violão cantava com o agradavel metal de sua voz”.
CONTINUA...

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