Thais Rabelo; Edite Rocha; Fernando Duarte
O Orador: discursos
Costa Filho descreve Frei Santa Cecília como liberal, talentoso e patriota (COSTA FILHO 1920, p. 81), um conjunto que conferiria ao frade uma série de discursos inflamados de ideais e posicionamentos políticos que destoavam daqueles defendidos pelos sancristovenses mais conservadores. Alguns desses eloquentes sermões despertaram a atenção desse público rendido ao discípulo de Frei Caneca, como “o pronunciado na capital baiana em 2 de julho de 1835, empolgando a tropa e o povo presentes, que o carregaram nos braços” (NUNES, 1997, p. 72) e o proferido no dia em que o estado celebrava a emancipação política da Bahia, a 24 de outubro de 1836, considerado como “seu mais famoso sermão, eivado de liberalismo, exaltando a liberdade e condenando a tirania. A citação a seguir é referente ao sermão de 1836.
No tempo, pois, em que o archote da discorida flammejava no horizonte da Bahia, e os rubros estandartes da guerra se viam levantados entre a Lusitania e o Brasil, sendo parte integrante a Metropole do Imperio, foi quando, Srs., Sergipe de novo feudataria daquella Provincia, viu muito de perto o servilismo, a ingratidão, a tyrannia de alguns de seus habitadores: como que ainda vejo, como que ainda me tocam essas imagens de dôr, e de uma indifferença tão execranda! Sim, eu vejo sahirem d’esta Capital, arrancados dos braços de suas Consortes, amigos e parentes, em fim, da doce Patria, os nossos dignos Concidadãos, Montes Valença e Bernardino, que carregando pesados ferros, e marchando entre cortadoras espadas, que sergipanos ingratos alçavam, são condusidos até Larangeiras, onde, depois de gemerem em tenebrosas masmorras, são remettidos á Bahia, entregues a todas as desgraças, que sempre acompanham tão funestos acontecimentos (COSTA FILHO 1920, p. 82).
Ainda em seu dicurso, frei Santa Cecília lamentou o fato de Sergipe ter se mantido dividido em relação à liberdade da pátria, quando já boa parte do país apoiava o príncipe regente. Também criticou grupo liberal da época, ao dizer que:
A virtude, Senhores, recommenda por si mesma, o merecimento se manifesta claro e mais perde a Provincia sem duvida, não chamando á sua representação os cidadãos pacífios, morigerados e instruidos; do que esses liberaes de exaltação, que só tendem a formar a anarchia religiosa e Política (COSTA FILHO 1920, p. 84).
O contexto ao qual se referia o frade em seu exaltado discurso era, sobremaneira, o da independência do Brasil, dos conflitos no período da regência de D. Pedro I. À época dos acontecimentos aos quais o frei José se referia estava no governo da Província de Sergipe o Brigadeiro Pedro Vieira (governando de 1821 a 1823), oposião à causa da Independência. Pedro Vieira “era amplamente conhecido como um dos líderes e agente do grupo defensor da anexação de Sergipe à Bahia e à proposta constitucio- nal das Cortes”. Também o vigário da freguesia de Nossa Senhora do Socorro, José Gonçalves de Figueiredo participou do grupo (ANTONIO, 2011, p. 231). As palavras do franciscano criticavam a divisão de Sergipe em re- lação à causa da independência. Essa divisão entre aqueles que apoiavam a independência do Brasil e os que queriam a total submissão à Portugal , também marcante em todo território brasileiro, foi notada em Sergipe.
Em sua fala, frei José denunciou os potentados da terra, que permaneceram ao lado dos opressores nas lutas da Independência da pátria, presos aos seus interesses mesquinhos” (NUNES, 1997, p. 72). Sobre essa ocasião, a historiadora Maria Thetis Nunes relatou o impacto social que a ousadia de frei José despertava:
O sermão escandalizou a sociedade conservadora local, sendo Frei José de Santa Cecília atacado pela imprensa como “ardiloso e virulento” conspirando “contra o trono e o altar”. Sofreu perseguições e mesmo ameaças que cercaram a vida pelas ideias revolucionárias que pregava. Sua atitude é uma demonstração de como as idéias espalhadas pelos ideológos e revolucionários franceses transpuseram o Atlântico e chegariam também à pequena Provincia de Sergipe (NUNES, 1997, p. 72).
A reação da imprensa, cuja crítica pretendia atingir naturalmente alguns sergipanos que pudessem compactuar com a mensagem política do discurso, divulgou um forte posicionamento de crítica e acusação à ousadia retórica de Frei José, atestada também pelo relato do memorialista que referiu que “A parte política do sermão foi a nota dissonante da mimosa peça oratória, no conceito da opinião de todos os credos que ouviram-na com religiosa attenção. Falando sobre a chaga social de então, perante um povo não acostumado a ouvir do pulpito tão rudes verdades” (COSTA FILHO, 1920, p. 84).
A posição de um sacerdote como agente político não era novidade no Brasil Imperial. Frei Santa Cecília é, inclusive, associado como discípulo de Frei Caneca – frei Joaquim do Amor Divino Rabelo (1779-1825) –, que, segundo Costa Filho (1920, p. 84), tinha uma visão política bastante exacerbada. Mas se por um lado, os “oradores sacros” eram bastante requisitados no Brasil católico oitocentista, principalmente nas solenidades e, naquele período, a política estava entre os temas mais recorrentes dos seus discursos, por outro, aparentemente, Frei José seguia uma linha de pensamento compartilhada pelo carioca franciscano Francisco do Monte Alverne (1784-1858) que se destacava também pelas suas impressionantes exposições (HAUCK et al., 2008, p. 102).
Em uma das ocasiões dedicadas ao aniversário do Imperador D. Pe- dro II, Frei de Santa Cecília foi convidado como o sacerdote orador da solenidade na capital sergipense, onde expõe seu forte apoio ao Império brasileiro. Neste âmbito, a narrativa hemerográfica, divulga alguns traços da atividade musical que acompanhava a cerimônia, como um “solemne Te Deum” (O CORREIO SERGIPENSE, 27 de Julho de 1842, p.1).
[...] subindo ao pulpito o erudito Religioso Franciscano Frei José de Santa Cecilia, teve lugar a orchestra instrumental a mais agradavel, e sonora; finde aqual hum religioso silencio deixou ouvir o eloquente discurso, que esse orador, incansável em contribuir com seus sacrifícios para a magnitude e esplendor de taes actos festivos, com o q’ não pequenos serviços tem prestado a sociedade, e lustrado tão pomposos actos nacionaes , recitou, tomando por thema o texto do Paralipomenon – Suscitabo Semen Tuum post Te, et firmebo regnum ejus – em cujo exordio formalisou hum paralelo do rei David, e Pedro 1o: aquelle fazendo a gloria de Israel, deixando na pessôa de Salomão seu filho a segurança dos Israelitas; este fazendo a nossa independência, e deixando no Augusto Filho a segurança do Brasil; a narração foi baseada nas vantagens da Monarchia, onde apresentou, desde a creação, o homem sugeito aos Reis, meditou sobre os males que pesão sobre os povos sem a legitima successão da Realeza; que o Throno tem sido e he a boia de salvação Publica; que os Brasileiros todos os bens conseguirão de hum Monarcha seu Patricio, educado no meio da mesma Nação, que hoje rege: finalmente o orador dá a sentir que qualquer idéa de divisão no Estado, ou mudança a mais leve, fará a sua ruina e total desmoronamento; concluindo com huma pathetica exclamação aos Legisladores, em que lamenta o quadro impune e imoral do Brasil, e lhes roga sabias Leis para o nosso melhoramento e prosperidade. Findo o que, passou-se a entoar hum solemne – Te Deum – alternado pelo Clero e Musica, em acção de graças ao Supremo Ser por nos ter prodigalizado tão venturoso dia de Salvação do Imperio (O CORREIO SERGIPENSE, 30 de Julho de 1842, p.2).
Alguns meses após este evento, encontramos referência de que o religioso franciscano receberia a quantia de 50 mil réis pela Oração que recitara no Te Deum nessa solenidade realizada na igreja Matriz de São Cristóvão, e cujo pagamento era ordenado pelo então Presidente da Província, Ignácio Joaquim Barbosa (O CORREIO SERGIPENSE, 5 de Outubro de 1842, p.1). Neste quadro temporal e político, Telles ressalta que em um contexto que o patriotismo estava muito vivo em função dos recentes epi- sódios em torno da Independência do Brasil que “persistia as lembranças de Labatut”, Frei José escreveria muitos hinos: “muitos cantos patrióticos cahiram do bico de sua penna” (TELLES, 1900/2013, p. 65). Assim, reforçando um posicionamento conjunto com os estados de Alagoas e Rio Grande do Norte no apoio à causa da independência, postura que prova- velmente facilitou a emancipação do estado (FREIRE, 1891/2013, p. 307), o impacto dos posicionamentos do Estado do Sergipe atraíram a atenção nacional, dado que sendo São Cristóvão a capital de Sergipe d’El Rei, foi lá que ocorreram os eventos em prol da emancipação, inclusive contando com a presença do General do Exercito Pacificador Pedro Labatut, quando nomeara José Eloy Pessoa, em 14 de Novembro de 1822 (FREIRE, 1891/2013, p. 307).
É notória a diferença de receptividade do frei em meio à sociedade local, se comparamos a reação ao seu sermão proferido em 1836, e a grande aceitação do mesmo no episódio de sua pregação em 1842, para a qual é convidado. Ainda não é possível determinar os fatores que teriam influenciado essa mudança de abordagem discursiva, por parte do frei. Porém, é possível conjecturar que, em virtude do forte impacto de seus discursos, ele teria abrandado sua fala ao longo do tempo.
CONTINUA...

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